Sobre o inferno, a prisão e a sala de aula: narrativas, testemunhos e outras histórias

Palavras-chave: Prisão, Escola, Narrativas, Professores, Egressos

Resumo

Pensar a prisão também é pensar o significado da escola. Por isso, este artigo reflete sobre as experiências educativas na prisão. Interessa-me aqui, a priori, compreender a prática pedagógica de professores atuantes nas unidades prisionais do Distrito Federal (DF). Com isso, pretendo compreender como se constitui a identidade docente e como a prisão a impacta. Posteriormente, busco analisar o impacto da (não) oferta da educação na vida de egressos, sobretudo no período de pós-encarceramento. Foram analisadas as narrativas de sete professores e três egressos do sistema prisional do DF, enquanto recorte de pesquisa de pós-doutoramento. Optou-se pela pesquisa qualitativa, considerando os aspectos subjetivos do campo educacional. A análise das narrativas considerou o lugar de fala desses atores, observando as possíveis intersecções entre as histórias narradas. Epistemologicamente, apresenta-se a prisão, a partir da literatura de testemunho e das narrativas autobiográficas, o cenário de pesquisa e seus personagens, considerando as feridas do encarceramento e sua seletividade penal. Dialogamos com o conceito de experiência e de pesquisa narrativa como recurso metodológico. Concluiu-se que a educação desconstrói processos de despersonalização e de apagamento social, embora seja solitário o ofício do professor. Ao final, é emancipadora sua ação pedagógica quando acessada na prisão.

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Biografia do Autor

Maria Luzineide Pereira da Costa Ribeiro, Universidade de Brasília

Pós-doutoranda do Programa de Pós-graduação em Direito, da Universidade de Brasília (UnB); Doutora em Teoria Literária e Literaturas (UnB). Participante do Grupo Candango de Criminologia (GCCRIM/UnB).

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Publicado
2022-05-14
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Como Citar
RIBEIRO, M. L. P. DA C. Sobre o inferno, a prisão e a sala de aula: narrativas, testemunhos e outras histórias. Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)biográfica, v. 7, n. 20, p. 52-68, 14 maio 2022.