A ETNOTAXONOMIA DE CRUSTÁCEOS ESTOMATÓPODES E DECÁPODES SEGUNDO PESCADORES ARTESANAIS DO LITORAL NORTE DA BAHIA, BRASIL

Felipe Paganelly Maciel da Silva, Eraldo Medeiros Costa Neto, César Roberto Góes Carqueija

Resumo


O estudo registra a etnotaxonomia de crustáceos decápodes e estomatópodes segundo comunidades de pescadores artesanais do litoral norte da Bahia, Brasil. O trabalho de campo foi desenvolvido em duas etapas: a primeira consistiu na coleta do material biológico; posteriormente, realizaram-se entrevistas semiestruturadas sobre os crustáceos coletados. Os limites sul e norte da área de estudo foram as praias de Ipitanga e Mangue Seco, respectivamente, totalizando 23 pontos amostrais de coleta de material biológico. Foram realizadas 51 entrevistas nas praias de Vilas do Atlântico, Buraquinho, Jauá, Arembepe e Praia do Forte entre agosto a dezembro de 2013. Os pescadores do litoral norte da Bahia apresentam uma concepção diversificada sobre os crustáceos, com uma riqueza de percepções, utilizando diversos critérios para definir/identificar o grupo, como critérios morfológicos, fisiológicos, ecológicos e utilitários. A partir desses critérios, os pescadores citaram um total de 42 nomes, incluindo crustáceos e outros animais pertencentes a diferentes grupos taxonômicos, como polvos, equinodermos e até mesmo tartarugas-marinhas. Referente à topografia corporal, estruturas homólogas apresentaram nomes iguais nos diferentes crustáceos, demonstrando um grau de reconhecimento de sistemas análogos por parte do conhecimento tradicional. Os resultados podem ser usados por gestores e pesquisadores em estudos sobre inventários da biodiversidade, desenvolvimento de planos de manejo e uso sustentável dos recursos pesqueiros.


Palavras-chave


Conhecimento tradicional, etnocarcinologia, etnotaxonomia, pescadores artesanais.

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