A precariedade humana em tempos de pandemia: meditações insólidas sobre a finitude da vida

Palavras-chave: Pandemia da Covid-19, Finitude humana, Critérios bioéticos, Sagrado e secularização

Resumo

Nos primeiros meses de 2020 a humanidade foi surpreendida por um vírus desconhecido, o SARS-CoV-2, que logo se mostrou extremamente agressivo e letal. Em um mundo socialmente desigual, a doença denominada de Covid-19 se alastrou por todo o globo terrestre. Os avanços científicos, que nos trouxeram grandes benefícios, foram paralisados diante de um microrganismo. Assim, uma pandemia igualou todos os seres humanos à precariedade da condição humana e da medicina. Nesse contexto, a medicina se confrontou com problemas que aparentemente estavam superados, como “quem merece viver e quem merece morrer?” De que modo a medicina precisaria passar por um processo de formação de competência moral? Em que medida os profissionais médicos deveriam assumir a sua humanidade? Diante do esgotamento dos recursos médicos, tomou-se consciência de que o desamparo e a finitude humanas são reais. O projeto do homo sapiens “amortal” foi interrompido pela banalidade de um vírus potente. A utopia da saúde perfeita foi redimensionada para questões simples que dizem respeito à solidariedade, à empatia, e ao cuidado àquele que sofre. Este artigo propõe trazer reflexões sobre a morte e o morrer, o cuidado para com a solidão dos moribundos. Acima de tudo, a ciência médica é uma atividade humana, e não pode reivindicar para si uma escatologia de um admirável mundo novo.

   

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Biografia do Autor

Euler Renato Westphal, Univille, Joinville, SC

Doutor em Teologia pelo Instituto Ecumênico de Pós-Graduação na Escola Superior de Teologia em São Leopoldo (RS) (Faculdades EST). Professor da Universidade da Região de Joinville (Univille). Professor na Faculdade Luterana de Teologia (FLT), São Bento do Sul (SC).

   

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Publicado
2021-09-07
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Como Citar
WESTPHAL, E. R. A precariedade humana em tempos de pandemia: meditações insólidas sobre a finitude da vida. Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)biográfica, v. 6, n. 18, p. 740-756, 7 set. 2021.