Ensinamentos de Ellen Swallow Richards: faróis à disrupção necessária frente ao Novo Qualis CAPES
DOI:
https://doi.org/10.59360/ouricuri.vol16.i1.a29450Palavras-chave:
Novo Qualis CAPES, ODS 5, Ecologia HumanaResumo
Na busca por uma definição da Ecologia Humana (EcoH), diferentes argumentos foram propostos ao longo de mais de um século. Elucubrações acerca do comportamento da espécie humana subsidiadas por conceitos da ecologia de comunidades foram elaboradas em 1924 por Roderick McKenzie (McKenzie, 1924). Este chegou a concluir que a “organização ecológica dentro de uma comunidade [humana] atua como uma força seletiva ou magnética, atraindo para si os elementos populacionais adequados e repelindo as unidades incongruentes, criando assim subdivisões biológicas e culturais da população de uma cidade”, ao que McKenzie denominou de processo de seleção populacional. Este tipo de seleção calcada na hereditariedade e mistura de raças dá “origem à variedade racial que é isca para o político e a ruína do estadista, porque entre raça e "cultura" surge um vasto número de problemas e conflitos mundiais” (Adams, 1935). Argumentos como estes multiplicaram-se em diferentes publicações desde os primórdios da EcoH, sendo reveladores da carga interseccional a ela imputada, porém, inaudita. E, justo por isso, não nos surpreende que somente no século XXI viesse a público que o “pai” da Ecologia Humana seria, na verdade, uma mulher. Ellen Henrietta Swallow Richards, mais uma vítima do sexismo científico, recentemente reconhecida por haver descrito a primeira definição de EcoH e suas aplicabilidades à melhoria da vida humana. Em 1907, Ellen Richards descreveu a EcoH como “o estudo do ambiente que cerca os seres humanos e os efeitos que ele produz em suas vidas”, sendo estes efeitos os naturais, como clima, e artificiais, como aqueles de origem antrópica (Richards, 1907). A definição de Ellen esteve calcada em princípios científicos defendidos pela atual EcoH, por reunir, já para a época, segundo Dyball (2010) e Dyball e Newell (2015), uma abordagem holística de sustentabilidade no uso de recursos naturais de acordo com a capacidade de carga do ambiente, atenção à inter-relação entre os seres humanos, suas culturas e seus ecossistemas; considerando, desta forma, a conquista de um futuro justo, apenas alcançável pelo esforço coletivo, de inevitáveis desafios políticos, para superar barreiras arraigadas. Inclui enquanto barreiras as que envolvem disparidades de poder, bem como aquelas que surgem dos valores culturais subjacentes (“paradigmas”) e que legitimam suposições cotidianas sobre o que constitui comportamento normal do dia-a-dia. Isto nos remete às novas diretrizes de avaliação qualitativa da produção acadêmica no Brasil, onde o modelo avaliativo “deve ser indutor de internacionalização das publicações de artigos e também de indexação de periódicos”, através de indicadores bibliométricos de referência internacional (CAPES, 2023; 2024). Diretrizes que enfrentam críticas em diferentes esferas por tenderem “a aprofundar desigualdades regionais, institucionais e de gênero” (Perez, 2025), as quais ainda necessitam de avaliação a fim de determinar “se o sistema evoluiu para uma estrutura de avaliação mais representativa ou se seus críticos têm razão em pedir sua extinção” (Brasil, 2023). Estas críticas a este modelo avaliativo baseiam-se no argumento de que “não favorece a Ciência da Informação”, por exemplo (Costa, Canto e Pinto, 2020), ou porque abre “margem para uma elevada subjetividade no processo de avaliação da qualidade dos artigos […] num cenário marcado por enorme quantidade de produção bibliográfica” (Hachem, 2025). É importante atentarmo-nos para o fato de que os indicadores bibliométricos foram criados e são gerenciados e negociados por colonizadores-escravizadores do passado e presente (Scopus, holandesa; Web of Science, britânica-norte americana; e Google Metrics, norte americana). Apesar de potentes sistemas de busca, como é de se esperar, são programados para valorizar o que é escrito em língua inglesa (Miguel, 2025), a qual no Brasil é “como o mercado quer: necessária, mas inalcançável” (Ferreira e Mozzillo, 2020), ou seja, excludente. Assim, este cenário espelha o resultado de uma “combinação de políticas educacionais ineficientes e a exploração mercadológica inescrupulosa do ensino de línguas estrangeiras que acabam por convencer os brasileiros de que precisam aprender inglês, ao mesmo tempo em que não criam condições para que isso aconteça para a maioria” (Dos Santos, 2020).
Concordamos que a nova avaliação acadêmica está sendo subjugada “a métricas de popularidade digital, […] e submete a ciência à lógica mercantil e aprofunda as desigualdades na pesquisa nacional” (ARÃO, 2026). Ampliar a visibilidade da produção científica não deveria significar apenas aumentar “seu alcance nas redes sociais ou acumular indicadores de impacto, mas assegurar que o conhecimento produzido seja acessível, compreensível e socialmente relevante para seus diferentes públicos” (Lewenstein, 2003). A produção científica necessita ser compreendida como uma prática comprometida com a democratização do conhecimento, capaz de aproximar Ciência e sociedade, fortalecer o diálogo entre pesquisadores e comunidades, e contribuir para a redução das desigualdades no acesso ao conhecimento científico, em consonância com a defesa de uma ciência orientada para o bem comum para a valorização da diversidade de saberes (Shiva, 1993; 2016). Carl Sagan, cientista e divulgador científico, em sua obra “O mundo assombrado pelos demônios”, de 1995, destaca a Ciência “como uma vela que ilumina a escuridão em um mundo assombrado pelos demônios”, e defendeu a democratização do conhecimento como condição inegociável ao combate das desigualdades, haja vista que vivemos em um mundo altamente dependente de Ciência e de Tecnologia (Sagan, 1995). Relacionando os pensamentos de Ellen Richards e Carl Sagan, questionamos: a quem serve a ciência que fazemos (e a forma como a comunicamos e divulgamos) – e a quem deveria servir – e por consequência, como deveríamos disseminá-la?
Em sua décima sexta edição, a Revista Ouricuri, após galgar o Qualis CAPES A3, na última e antiga avaliação periódica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), brinda suas leitoras e leitores, e suas autoras e autores com artigos que buscam desvelar, enquanto resultado de pesquisas, o caráter holístico da sustentabilidade. Destaca as “inter-relações entre os seres humanos, suas culturas e ecossistemas”, à luz dos ensinamentos da mãe “partenogenética” da EcoH, Ellen Henrietta Swallow Richards. Urge, neste devir humano frente ao “Novo Qualis CAPES”, sermos faróis à disrupção necessária proposta por Ellen: refletir, escrever e disseminar questionamentos sobre os comportamentos ditos “normais” para que possamos romper com a lógica excludente que hoje reorganiza-se através dos algoritmos que atuam na manutenção das duas únicas classes possíveis de humanos neste contexto anti-Ellen, parafraseando a Freire (2017): "os que oprimem e os que são oprimidos".
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Referências
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