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				<journal-title>Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. FAEEBA - Ed. e
					Contemp.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2358-0194</issn>
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				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
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				>10.21879/faeeba2358-0194.2024.v33.n76.p227-238</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigo</subject>
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			<title-group>
				<article-title>CÁTEDRAS UNESCO: UM LUGAR PARA A EDUCAÇÃO POPULAR NA
					UNIVERSIDADE?</article-title>
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					<trans-title>UNESCO CHAIRS: A PLACE FOR POPULAR EDUCATION IN THE
						UNIVERSITY?</trans-title>
				</trans-title-group>
				<trans-title-group xml:lang="es">
					<trans-title>CÁTEDRAS UNESCO: ¿UN LUGAR PARA LA EDUCACIÓN POPULAR EN LA
						UNIVERSIDAD?</trans-title>
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				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-5021-3782</contrib-id>
					<name>
						<surname>Rosa</surname>
						<given-names>Carolina Schenatto da</given-names>
					</name>
					<bio>
						<p><sup>*</sup> Doutorado em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos
							Sinos (2022). Pós-Doutoranda com bolsa Doc-Fix na da Universidade de
							Caxias do Sul. Integrante do grupo de pesquisa Educação e pesquisa na
							América Latina: convergências teóricas e metodológicas. Caxias do Sul -
							Rio Grande do Sul. E-mail: <email>carolinaschenatto@gmail.com</email>
						</p>
					</bio>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"/>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-7410-3174</contrib-id>
					<name>
						<surname>Streck</surname>
						<given-names>Danilo Romeu</given-names>
					</name>
					<bio>
						<p><sup>**</sup> Doutorado em Fundamentos Filosóficos da Educação pela The
							State University of New Jersey - New Brunswick, Estados Unidos (1977).
							Professor Titular da Universidade de Caxias do Sul. Colíder do grupo de
							pesquisa Educação e pesquisa na América Latina: convergências teóricas e
							metodológicas. Caxias do Sul - Rio Grande do Sul. E-mail:
								<email>streckdr@gmail.com</email>
						</p>
					</bio>
					<xref ref-type="aff" rid="aff2"/>
				</contrib>
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			<aff id="aff1">
				<institution content-type="orgname">Universidade de Caxias do Sul</institution>
				<institution content-type="original">Universidade de Caxias do Sul</institution>
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				<institution content-type="orgname">Universidade de Caxias do Sul</institution>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>20</day>
				<month>11</month>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2024</year>
			</pub-date>
			<volume>33</volume>
			<issue>76</issue>
			<fpage>227</fpage>
			<lpage>238</lpage>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Este artigo investiga o papel político e pedagógico das Cátedras UNESCO na
					promoção da educação popular e na construção de uma cidadania global crítica,
					tomando como exemplo a Cátedra UNESCO de Educação para a Cidadania Global e
					Justiça Socioambiental, sediada na Universidade de Caxias do Sul. Argumenta-se
					que as Cátedras promovem a democratização do conhecimento e a integração entre
					ensino, pesquisa e extensão, apresentando exemplos de parcerias com escolas,
					sistematizações de experiências indígenas e projetos de extensão
					transdisciplinares. Metodologicamente, o processo de escrita fundamentou-se na
					prática dialógica freireana. Por meio dos encontros regulares da Cátedra, foram
					discutidas e selecionadas ações representativas; a partir dessa seleção, foram
					solicitados relatos descritivos dos coordenadores dos projetos envolvidos,
					permitindo uma análise crítica colaborativa das práticas relatadas. As
					conclusões destacam o significativo potencial da Cátedra UNESCO para transformar
					a universidade e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e
					equitativa.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This article investigates the political and pedagogical role of UNESCO Chairs in
					promoting popular education and building a critical global citizenship, taking
					as an example the UNESCO Chair in Education for Global Citizenship and
					Socioenvironmental Justice, based at the University of Caxias do Sul. It is
					argued that the Chairs promote the democratization of knowledge and the
					integration of teaching, research, and extension, presenting examples of
					partnerships with schools, systematizations of Indigenous experiences, and
					transdisciplinary extension projects. Methodologically, the writing process was
					based on Freirean dialogical practice. Through the Chair’s regular meetings,
					representative actions were discussed and selected; from this selection,
					descriptive reports were requested from the coordinators of the projects
					involved, allowing a collaborative critical analysis of the reported practices.
					The conclusions highlight the significant potential of the UNESCO Chair to
					transform the university and contribute to building a fairer and more equitable
					society.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>Este artículo investiga el papel político y pedagógico de las Cátedras UNESCO en
					la promoción de la educación popular y la construcción de una ciudadanía global
					crítica, tomando como ejemplo la Cátedra UNESCO de Educación para la Ciudadanía
					Global y Justicia Socioambiental, con sede en la Universidad de Caxias do Sul.
					Se argumenta que las Cátedras promueven la democratización del conocimiento y la
					integración entre la enseñanza, la investigación y la extensión, presentando
					ejemplos de asociaciones con escuelas, sistematizaciones de experiencias
					indígenas y proyectos de extensión transdisciplinarios. Metodológicamente, el
					proceso de redacción se basó en la práctica dialógica freireana. A través de las
					reuniones regulares de la Cátedra, se discutieron y seleccionaron acciones
					representativas; a partir de esta selección, se solicitaron informes
					descriptivos a los coordinadores de los proyectos involucrados, permitiendo un
					análisis crítico colaborativo de las prácticas reportadas. Las conclusiones
					destacan el significativo potencial de la Cátedra UNESCO para transformar la
					universidad y contribuir a la construcción de una sociedad más justa y
					equitativa.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Educação popular</kwd>
				<kwd>Cidadania global</kwd>
				<kwd>Cátedras UNESCO</kwd>
				<kwd>Democratização do conhecimento</kwd>
				<kwd>Pedagogia crítica.</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Popular education</kwd>
				<kwd>Global citizenship</kwd>
				<kwd>UNESCO Chairs</kwd>
				<kwd>Democratization of knowledge</kwd>
				<kwd>Critical pedagogy.</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>Educación popular</kwd>
				<kwd>Ciudadanía global</kwd>
				<kwd>Cátedras UNESCO</kwd>
				<kwd>Democratización del conocimiento</kwd>
				<kwd>Pedagogía crítica.</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup></title>
			<p>O “papel social da universidade” ou a “relação entre universidade e sociedade” são
				temas que permeiam produções dos mais variados tipos, sejam teses, dissertações,
				artigos, aulas ou palestras. Quando nos deparamos com argumentos em torno do papel
				ou do impacto da universidade na sociedade (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Gimenez;
					Bonacelli, 2013</xref>), podemos ser levados a pensar que estas são instituições
				separadas, que estão em constante relação e que incidem uma sobre a outra, quando,
				na verdade, não o são. A universidade não está em relação com a sociedade, ela está
				dentro da sociedade (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Jara, 2018</xref>), ela compõe
				a trama das relações sociais existentes no contexto em que se insere, respondendo às
				questões por ele impostas.</p>
			<p>As discussões em torno da universidade são permeadas, diz o professor José <xref
					ref-type="bibr" rid="B15">Neto (2002)</xref>, por um debate político que se
				constitui a partir de um espaço, no campo teórico, no qual vários projetos mantém
				permanente disputa. Um espaço de contradições, de interesses divergentes, no qual
				esses projetos muitas vezes reproduzem os “valores comuns” herdados das
				universidades europeias desde Bolonha, enquanto “produtoras e disseminadoras do
				conhecimento técnico” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Neto, 2002</xref>, p. 7) que,
				muitas vezes, torna-se sem efeito para a sociedade local no momento histórico
				específico no qual são produzidos, pondo em xeque o papel político e pedagógico da
				universidade enquanto instituição social transformadora.</p>
			<p>Neste debate político, as Cátedras Unesco ocupam um espaço privilegiado para a
				produção de conhecimentos locais, que se articulam com o tempo presente e com as
				diferentes vozes que compõem a sociedade. Essa posição privilegiada se deve ao fato
				de as cátedras UNESCO constituírem um espaço de relativa autonomia dentro das
				universidades e, ao mesmo tempo, integrarem uma vasta rede internacional, dessa
				forma elas têm condições de promover, de forma articulada, ações no âmbito local,
				nacional e internacional.</p>
			<p>Em entrevista publicada na Revista da Extensão da UFRGS, o educador Oscar <xref
					ref-type="bibr" rid="B12">Jara (2018</xref>, p. 8) fala sobre o papel político e
				social transformador da universidade, “especialmente em sociedades tão injustas e
				polarizadas, como as que temos na América Latina”, que só pode se materializar por
				meio da permanente articulação entre as dimensões do ensino, da pesquisa e da
				extensão. Essa articulação, diz o professor, é o caminho para se construir uma
				“universidade popular”, que seja pautada em três aspectos: a) popular no sentido de
				democrática, gratuita e de qualidade; b) popular no sentido de estar articulada com
				movimentos populares, cujo conhecimento seja produzido na relação com setores
				populares e, por isso, tenha por finalidade a superação das opressões e
				desigualdades; c) popular no sentido de beneficiar a maioria, de trabalhar na
				construção de um projeto de sociedade mais justa.</p>
			<p>As perguntas que nos movem na escrita deste artigo são: podem as Cátedras Unesco ser
				um lugar de construção deste “popular” nas universidades? Quais as contribuições da
				pedagogia latino-americana e da educação popular para essa grande rede de
				instituições que se conectam ao redor do mundo? O programa de Cátedras Unesco,
				lançado em 1992, visa justamente incentivar a criação de redes de universidades, a
				cooperação interuniversitária e o diálogo entre universidades e sociedade. Assim,
				para responder a essas questões, vamos tomar como exemplo a Cátedra Unesco Educação
				para a Cidadania Global e Justiça Socioambiental, fundada em 2022.</p>
			<p>Para tal, optamos por uma abordagem qualitativa de caráter descritivo e reflexivo,
				fundamentada nos princípios da pesquisa educacional descritos por <xref
					ref-type="bibr" rid="B17">Prodanov e Freitas (2013)</xref>, especialmente no que
				se refere à sistematização e análise crítica de práticas educacionais. O percurso
				metodológico seguiu três etapas principais: primeiramente, nos encontros regulares
				da Cátedra, discutimos e selecionamos coletivamente os projetos representativos,
				conforme sugerido por Marcondes e Oliveira (<xref ref-type="bibr" rid="B14"
					>2010</xref>). No movimento seguinte, durante um desses encontros, a proposta de
				escrita foi discutida coletivamente, permitindo o diálogo e a troca de ideias sobre
				as práticas a serem selecionadas. Os encontros semanais têm proporcionado, ao longo
				do tempo, uma compreensão crítica das ações desenvolvidas e dos projetos realizados
				pela rede de instituições envolvidas, permitindo um maior senso de pertencimento e
				coletividade.</p>
			<p>Após a seleção dos projetos, solicitamos aos coordenadores breves relatos
				descritivos, narrando as práticas e experiências conduzidas. Esses registros
				serviram como fontes primárias para nossa (auto)análise. Entendida como uma reflexão
				crítica fundamentada na pedagogia freireana, a escrita deste texto permitiu que nós,
				como membros da Cátedra, revisássemos criticamente as inserções da Cátedra na
				sociedade por meio do tripé ensino-pesquisa-extensão e autoanalisássemos o seu papel
				transformador na democratização do conhecimento. Neste contexto dialógico, a
				autoanálise possibilitou o desenvolvimento de uma reflexão teórica e descritiva
				sobre as práticas, utilizada como base para a construção deste artigo (<xref
					ref-type="bibr" rid="B23">Triviños, 2015</xref>). Assim, este texto é o
				resultado de um processo de autoconhecimento e reflexão crítica, por meio do qual
				buscamos assegurar a coerência entre a produção e a análise de dados, alinhando os
				critérios de cientificidade, como a sistematicidade e a consistência teórica (<xref
					ref-type="bibr" rid="B17">Prodanov; Freitas, 2013</xref>). Organizamos nosso
				texto em quatro partes: primeiro, buscamos discutir os lugares e os sentidos da
				educação popular dentro da universidade; em um segundo momento, apresentamos a
				Cátedra Unesco Educação para a Cidadania Global e Justiça Socioambiental e algumas
				de suas ações; na terceira parte desenvolvemos o argumento central do texto, que é a
				relação indissociável entre educação popular e cidadania global; na quarta e última
				parte, em nossas considerações finais, buscamos responder as duas perguntas
				orientadoras enfatizando a) a potencialidade das Cátedras para a democratização do
				conhecimento e a articulação entre ensino, pesquisa e extensão; e b) o papel
				político-pedagógico da educação popular na (re)significação da cidadania global para
				a construção de uma sociedade mais justa.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Educação popular e universidade: uma (re) aproximação necessária</title>
			<p>A educação popular, na acepção a ela hoje atribuída, é uma proposta pedagógica na
				América Latina que remonta aos inícios da segunda metade do século passado, tendo a
				práxis educativa de Paulo Freire como uma referência básica. No entanto, como
				ressalta Brandão (2013), isso não significa que ela foi um fenômeno situado em
				algumas décadas do passado. Ela tem antecedentes nas lutas de resistência e
				emancipação do poder colonial e continua se recriando de muitas formas e em muitos
				lugares, na América Latina e em outras partes do mundo (Streck; Esteban, 2013). O
				que caracteriza a educação popular é um núcleo comum de práticas educativas nas
				quais, entre outros requisitos, os educandos se transformam em sujeitos históricos a
				partir da leitura crítica da realidade (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Torres,
					2007</xref>).</p>
			<p>Conceição Paludo (2018), situa a educação popular no contexto de luta por condições
				de vida dignas que remontam os movimentos sociais modernos, desde a Revolução
				Francesa e as Revoluções Liberais Modernas, onde os setores populares tiveram um
				papel significativo na busca por liberdade, fraternidade e igualdade; até os
				movimentos de resistência e libertação da/na América Latina do século XX. Nessas
				lutas, as práticas e ideais educacionais desempenharam um papel importante, com
				intensos debates sobre a educação destinada ao povo, envolvendo intelectuais,
				políticos, ativistas e líderes sociais, e encontrando expressão concreta nos
				movimentos sociais. É dentro deste quadro mais amplo que surgem, em nosso
				continente, ideias e propostas de educação popular que alcançaram reconhecimento
				global.</p>
			<p>O fato é que, talvez como outros nomes, a educação popular não se constituiu separada
				da universidade ou da vida universitária. Se analisarmos as obras de Freire, por
				exemplo, veremos que “em quase todos os livros identificamos a sistematização de
				suas experiências educativas realizadas com frequência através de Universidades ou
				em seu nome” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Brandão; Paulo, 2018</xref>, p. 478).
				Isso porque a sua concepção de educação perpassa por uma universidade democrática,
				aberta ao povo, que se articula com os círculos de cultura e é parte fundamental do
				Sistema Paulo Freire. Neste contexto, seja entre os cordéis, as pastorais ou os
				Movimentos de Educação de Base, a educação popular nasce das práticas de estudantes,
				professores e intelectuais que estavam profundamente engajados com a construção de
					<italic>universidades populares.</italic></p>
			<p>Roberto Rocha (<xref ref-type="bibr" rid="B18">1984</xref>), ao apresentar uma
				retrospectiva histórica das universidades populares e da extensão no Brasil,
				menciona experiências pioneiras ainda na primeira década do século XX, como a
				Universidade Popular do Rio de Janeiro, a Universidade Popular do Maranhão e a
				Universidade Livre de São Paulo. Da mesma forma, <xref ref-type="bibr" rid="B26"
					>Vasconcelos (2011</xref>, p. 17) relata que, na primeira metade do século XX
				havia uma “grande agitação universitária, inspirada na Educação Popular, que ainda
				não tinha recebido esse nome”. Essa agitação se dava em torno da extensão e das
				ações de cultura popular. Uma experiência mais recente que merece ser mencionada é a
				Universidade Popular Comunitária (UCP), em Cuiabá no Mato Grosso.</p>
			<p>A UPC foi concebida a partir de um diálogo entre a Secretaria Municipal de Educação e
				diversos profissionais da rede de ensino que, inspirados na “Carta das Cidades
				Educadoras”, desenvolveram um projeto de pesquisa-ação para entender as demandas
				locais e construir um currículo relevante e comunitário, pautado na educação popular
					(<xref ref-type="bibr" rid="B19">Silva <italic>et al</italic>., 2024</xref>). As
				Cidades Educadoras, associadas à Unesco, compartilham o objetivo de transformar as
				cidades em espaços educadores, onde a educação não se limita às instituições
				formais, mas é integrada ao cotidiano das comunidades. No contexto da UCP, isso se
				reflete em uma abordagem humanizadora e problematizadora, que promove a educação
				como um direito universal e uma ferramenta de transformação social, contribuindo
				para a democratização do conhecimento e a construção de uma sociedade mais justa e
				equitativa.</p>
			<p>Se olharmos para a experiência da América Latina, veremos uma vasta tradição de luta
				pela conquista da universidade popular, que remete a nomes como José Carlos
				Mariátegui e de José Martí, por exemplo. Por mais distintas que sejam as
				compreensões de universidade e de popular de ambos intelectuais, havia um ponto em
				comum: o desejo de (re)aproximar a universidade com as necessidades e os saberes do
				povo (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Streck; Rosa, 2015</xref>). Esse desejo se
				refletiu na Reforma Universitária Córdoba, que defendeu uma universidade que fosse
				“escola de ação social adaptada ao seu meio e a seu tempo” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B10">Ingeniero, 1920</xref>). A juventude de Córdoba reivindicou uma
				universidade voltada à educação integral, que coloque a experiência como fundamento
				do ensino e da pesquisa.</p>
			<p>Por mais distintas que sejam as compreensões de universidade e de popular dos três
				exemplos, havia um ponto em comum: o desejo de (re)aproximar a universidade com as
				necessidades e os saberes do povo (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Streck; Rosa,
					2015</xref>). Compreendemos que essa percepção seja, em grande medida, um fruto
				herdado do Movimento de Córdoba de 1918. Se fosse possível resumir esse desejo e,
				por meio dele, o movimento de universidades populares, em uma única palavra, talvez
				a melhor opção fosse “comunicação”. Comunicação no sentido freireano de diálogo e
				co-criação; como um eixo transversal na relação entre popular e universidade.</p>
			<p>Essa comunicação abarca os sentidos de popular elencados por <xref ref-type="bibr"
					rid="B12">Jara (2018)</xref> e dá à universidade coerência, ou, como diria
				Freire (1982, p. 98), “ajuíza o discurso” acerca do que é o papel social da
				universidade e qual o espaço que o “popular” ocupa dentro de seus muros. Partindo de
				Freire, entendemos que esse papel é de criar possibilidades para a produção do
				conhecimento e leitura da realidade, enquanto que o espaço do popular é o de
				produtor desses saberes; pois “o conhecimento não se estende do que se julga sabedor
				até aqueles que se julgam não saberem; o conhecimento se constitui nas relações
				homem-mundo, relações de transformação, e se aperfeiçoa na problematização crítica
				destas relações” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Freire, 1977</xref>, p. 36).</p>
			<p>De forma geral, podemos dizer que as universidades estão longe de serem populares. Os
				critérios de qualidade sobre o que é uma boa instituição de ensino superior se
				pautam muito mais na produção acadêmica e no impacto das ações do que na construção
				de espaços para leitura e transformação da realidade. Nesta perspectiva, ao
				examinarmos a tensão entre educação popular e universidades, somos levados a admitir
				que essas instituições têm se mostrado pouco capazes de promover tanto a integração
				do “popular”, quanto respostas às necessidades desses sujeitos, seja pela
				fragmentação típica do fazer acadêmico, seja pelo distanciamento entre “para quê”,
				“para quem” e “com quem” se faz pesquisa. Como, nas universidades, podemos promover
				a comunicação e as práticas de educação popular?</p>
			<p>O professor Balduino <xref ref-type="bibr" rid="B2">Andreola (2007)</xref>, ao
				abordar o tema, fala que a universidade necessita de uma “política de proteção
				intelectual”; que permita à academia produzir com os sujeitos um conhecimento
				próprio. Se “pesquisar é pronunciar o mundo” e, por isso, é um exercício de “dizer
				sua palavra”, o papel da universidade não se resume a “dar espaço” para que os
				“subalternos” ou os “oprimidos” falem; cabe a essa instituição criar espaços de
				diálogo, conectar diferentes sujeitos e colocálos no lugar de teóricos da própria
				história e das próprias experiências. Essa política se propõe a partilhar, mais do
				que produzir em uma lógica de competição; a potencializar participações, ao invés do
				autoritarismo vertical; e a produzir saberes descentralizados, a partir de outras
				cosmovisões. Ou seja, é uma política que promove práticas capazes de gerar processos
				transformadores na própria universidade.</p>
			<p>Com quem e para quem se faz essa universidade? <xref ref-type="bibr" rid="B7">Freire
					(2017</xref>, p. 23) diria que com os “[...] esfarrapados do mundo e aos que
				nele se descobrem e, assim descobrindo-se com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles
				lutam [...]”. Como? Construindo espaços de resistência que atuem de forma
				transdisciplinar e horizontal. Na vida universitária, é geralmente a extensão que,
				com algum apoio institucional, se materializa como espaço. Projetos de extensão
				orientados pela educação popular, diz <xref ref-type="bibr" rid="B26">Vasconcelos
					(2011</xref>, p. 20) passam a ser vistos “[...] não apenas como militância
				política, mas também como maneira de preparar melhor os profissionais em formação
				para o mercado de trabalho criado pelas novas políticas sociais”.</p>
			<p>O desafio que se apresenta é a criação de espaços que exercitem o tripé
				“ensino-pesquisa-extensão” e que sejam capazes de pautar agendas e influenciar nas
				ações da universidade. A pergunta que fica é: seriam as cátedras um lugar de
				reinvenção da própria universidade?Ou ainda, as redes de conhecimentoe as trocas de
				experiência entre instituições e países seria uma estratégia para construir uma
				universidade mais solidária e mais justa, um lugar humanizador e pautado na
				superação das desigualdades socioambientais?</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Cátedra Unesco Educação para a Cidadania Global e Justiça Socioambiental: um
				lugar de educação popular?</title>
			<p>A Cátedra UNESCO de Educação em Cidadania Global e Justiça Socioambiental, com sede
				na Universidade de Caxias do Sul, foi inaugurada em fevereiro de 2023, com o
				objetivo de contribuir para a educação para o desenvolvimento da cidadania crítica e
				ativa, integrando a sustentabilidade ambiental e a justiça social. A decisão pelos
				temas da “cidadania global” e da “justiça socioambiental” deu-se por acreditarmos
				que essas questões são pontos de encontro para compartilhar e coordenar práticas em
				todos os continentes, já que tanto as questões ambientais quanto as desigualdades
				sociais transcendem as fronteiras de nossos estados nacionais.</p>
			<p>As Cátedras UNESCO estão, geralmente, localizadas em universidades e se inserem como
				articuladoras do tripé pesquisa-ensino-extensão. Atualmente fazem parte desta rede
				mais de 1000 Cátedras, situadas em 120 países ao redor do mundo. De forma geral,
				todas elas se conectam por articularem temas relacionados aos Objetivos do
				Desenvolvimento Sustentável e podem ser descritas como ferramentas de cooperação
				internacional, articuladoras de redes de pesquisa e mecanismos de democratização do
				conhecimento. Para apresentar a Cátedra UNESCO Educação em Cidadania Global e
				Justiça Socioambiental e ilustrar como ela se constitui como um lugar de promoção da
				educação popular, escolhemos cinco projetos que se articulam com as duas tríades
				mencionadas neste parágrafo e que encontram na Cátedra um lugar de diálogo com
				outras práticas.</p>
			<p>A primeira experiência é um convênio desenvolvido entre a UCS e a Secretaria de
				Educação do Município de Bento Gonçalves, através do qual a Escola Municipal de
				Tempo Integral São Roque passou a desenvolver suas atividades dentro do Campus
				Universitário da Região dos Vinhedos (Carvi). Dessa forma, 300 discentes de 6º a 9º
				ano realizam atividades inter/ transdisciplinares que envolvem professores e
				estudantes dos cursos de Psicologia, Nutrição, Fisioterapia, Educação Física e
				Pedagogia. Destacam-se atividades relacionadas com a preservação da história e da
				cultura indígena, assim como a educação ambiental e a preservação do meio ambiente.
				Esta parceria promove a colaboração direta com a comunidade, a cocriação de
				conhecimento e a contextualização das práticas educativas. Além disso, o foco em
				temas como a preservação da história e cultura indígena e a educação ambiental
				reforça o compromisso com a justiça socioambiental e contribui para a democratização
				do conhecimento e a transformação social.</p>
			<p>Outro exemplo é o Projeto de Extensão Desalinha, que é fruto do diálogo entre a
				Universidade e diferentes setores da sociedade. Esta iniciativa envolve alunos do
				curso de Design em projetos sociais e culturais, como a Feira do Livro de Caxias do
				Sul, a Feira do Livro de Bento Gonçalves, o Projeto Semente Conquista e o Projeto
				Geloteca. A partir do Desalinha surgiu o Laboratório de imaginação radical sobre
				design, cultura, sociedade, meio ambiente e política - um espaço que fomenta o
				pensamento crítico e comprometido, promovendo um sentido de agência e empoderamento
				entre seus participantes. Seu objetivo é criar e facilitar encontros que mobilizem
				seus membros para imaginar novas formas de coexistir e habitar a universidade
				através do “aprendizado horizontal e do intercâmbio de conhecimentos através das
				fronteiras” (<xref ref-type="bibr" rid="B25">UNESCO, 2022</xref>, p. 15). Essa
				transformação nasce do esforço coletivo e do apoio mútuo, baseados na práxis
				freireana, que busca compreender o mundo para transformálo através de um enfoque
				esperançador que ajudará a desenvolver um pensamento crítico capaz de ampliar
				horizontes além da atuação profissional.</p>
			<p>Uma terceira experiência é o trabalho realizado pela Associação de Defensores
				Públicos do Estado do Rio Grande do Sul, que em parceria com a Universidade do Vale
				do Rio dos Sinos, outra instituição-membro da Cátedra, realiza atividades de
				educação em direitos humanos em escolas da rede pública. Através deste projeto, são
				realizadas atividades com a comunidade escolar sobre direitos e responsabilidades e
				sobre democracia e o exercício efetivo da cidadania, a fim de formar crianças,
				jovens e adultos que fomentem o respeito, promovam uma cultura de paz e defendam a
				vida. A educação em direitos humanos é um componente essencial da cidadania global,
				permitindo a ampliação das perspectivas dos participantes acerca dos direitos do
				humano em uma sociedade cada vez mais marcada pelos impactos da nossa ação do
				mundo.</p>
			<p>No âmbito da pesquisa, destacamos o projeto “Sistematização internacional de
				experiências educativas indígenas para a interculturalidade e a cidadania global
				crítica”, que visa sistematizar experiências educativas de comunidades Kaingang da
				região do Vale do Rio dos Sinos, Rio Grande do Sul; de comunidades Tupis e Guaranis
				da região Metropolitana da Baixada Santista, no Litoral de São Paulo; e comunidades
				Guaranis da região de Santa Maria de Fe, Misiones -Paraguai, a fim de identificar a
				contribuição dessas experiências para a interculturalidade e a cidadania global numa
				perspectiva crítica e internacional. O projeto é desenvolvido em parceria entre a
				Universidade do Vale dos Sinos e a Universidade Católica de Santos. Esta iniciativa
				promove o diálogo intercultural e a co-criação de conhecimento. Além disso, o
				projeto fortalece a cidadania global crítica ao conectar experiências locais a uma
				perspectiva internacional.</p>
			<p>Um último exemplo é o Projeto Leituras do Pensamento Latino-Americano, que se propõe
				a motivar a construção do conhecimento e o aprofundamento sobre a históriae o
				pensamento latino-americanos. Trata-se de um fórum de encontro, diálogo e reflexão,
				reunindo pensadores e pensadoras de diversos países do continente. O evento é
				aberto, online e ocorre uma vez ao mês. A edição de 2024 está abordando a riqueza e
				complexidade do pensamento dos povos originários. A iniciativa visa a fortalecer a
				consciência crítica sobre a realidade social e histórica da América Latina,
				proporcionando um espaço para a co-criação e para a democratização conhecimento.</p>
			<p>Outras práticas poderiam ser citadas, como o protagonismo da Cátedra na elaboração do
				projeto de criação do Observatório em Direitos Humanos no município de Caxias do
				Sul. Fazendo uma analogia, <xref ref-type="bibr" rid="B12">Jara (2018)</xref>, que
				situa a extensão como o coração da universidade e não como seu braço, é possível
				dizer que as Cátedras atuam como o sistema nervoso central, sendo responsáveis pela
				conexão, organização e aproximação entre as demais partes do corpo. Em princípio,
				elas permitem que outras instituições e setores da universidade e da sociedade se
				comuniquem e trabalhem conjuntamente, sendo um catalisador de ações e um laboratório
				para a extensão universitária. Com essa articulação, as cátedras podem potencializar
				a construção de uma universidade que dialogue com princípios democráticos,
				inclusivos e voltados para a justiça social, contribuindo assim para o
				desenvolvimento de uma sociedade mais justa e equitativa.</p>
			<p>E quais os desafios enfrentados? A partir da nossa experiência, um dos desafios
				consiste em criar as condições dentro do ambiente acadêmico para o desenvolvimento
				do tema da Cátedra. A academia, ao estar composta por áreas de conhecimento muito
				diversas, está longe de ser um corpo homogêneo, como sugere uma visão superficial.
				Existem brechas menores ou maiores em todas as instituições e, quando não as há,
				enfrentamos o desafio de criá-las. As brechas nas rochas podem ser causadas pela
				força da dinamite ou pela ação persistente do vento e da água.</p>
			<p>Nas instituições, às vezes é importante aplicar um pouco de dinamite para desacomodar
				e mudar as trajetórias, mas sem esquecer que as mudanças mais profundas e duradouras
				ocorrerão através da ação que se realiza na tensão da paciência-impaciência (Freire,
				2005), às vezes pouco visível, como a do vento e da água sobre a rocha. A educação
				popular tem como uma de suas funções proporcionar essas brechas para ações
				educativas críticas e transformadoras, promovendo uma noção de cidadania que integre
				a perspectiva local, nacional, regional e planetária. Afinal, tanto os movimentos
				sociais quanto as universidades formam redes que transcendem as fronteiras
				geográficas e regionais.</p>
			<p>Outro desafio é, justamente articular essas redes em torno projetos comuns. As
				Cátedras nos parecem um espaço frutífero para ações transdisciplinares e articuladas
				entre o ensino, a pesquisa e a extensão; entre o local e o global; entre o passado,
				o presente e o futuro; entre a universidade e a sociedade. Por vezes, essa
				articulação é afetada pelas barreiras linguísticas, que acabam limitando o acesso às
				produções intelectuais e atividades conjuntas, em especial quando estas não são
				voltadas apenas para a comunidade acadêmica. No caso da educação popular a questão
				que se coloca não é, necessariamente, a tradução. O desafio aqui está muito mais
				relacionado com a epistemologia e o contexto das pesquisas e experiências. Tanto o
				significado e a importância do “popular” e da mudança social variam, quanto os
				sentidos de rigor científico e rigorosidade. Disso emergem duas perspectivas: uma
				argumentando pela adaptação ao mundo e ao léxico adotado como “global” e outra, que
				vê esse desafio como um campo de disputas e visa transformar e ressignificar os
				sentidos. É nesta última que reside o <italic>ethos</italic> da educação
				popular.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Cidadania global: <italic>ethos</italic> ou utopia da educação popular?</title>
			<p>No prefácio do livro “Rebel Literacy: Cuba’s national literacy campaign and critical
				global citizenship” (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Abendroth, 2009</xref>), o
				professor Peter MacLaren apresenta o que é a “cidadania global crítica”<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></sup> da qual a obra trata, sinalizando que
				a práxis pedagógica desenvolvida pela campanha de alfabetização cubana (cujas raízes
				cresceram no solo da educação popular) é o elemento central desta cidadania “outra”
				e o que a difere das práticas (re)produzidas em outras partes do mundo. O adjetivo
				“crítica”, neste contexto, refere-se a uma orientação que questiona o status quo e
				as premissas que o sustentam, que resiste às opressões e que luta para criar novas
				realidades em consonância com a dignidade humana (<xref ref-type="bibr" rid="B1"
					>Abendroth, 2009</xref>). Para <xref ref-type="bibr" rid="B13">MacLaren
					(2009)</xref>, a cidadania global é um “termo guarda-chuva”, que na América
				Latina se desenvolveu a partir de estratégias e táticas (ou meios e objetivos)
				estruturados em torno da tríade “educação popular”, “pedagogia crítica” e
				“revolução” (termo que poderia ser lido e traduzido como “decolonialidade”).</p>
			<p>A base dessa cidadania global crítica, afirma Peter <xref ref-type="bibr" rid="B13"
					>MacLaren (2009)</xref>, é, portanto, o caráter inter/transnacional da educação
				popular enquanto campo de ação e reflexão acerca da construção de um senso de
				comunidade e de igualdade. Encontramos na construção da cidadania global crítica os
				“valores revolucionários” da educação popular - aquilo que compõe o seu
					<italic>ethos: o</italic> reconhecimento do racismo como marca estruturante das
				sociedades latino-americanas; a histórica conexão entre as lutas indígenas e
				populares latino-americanas ao longo dos últimos 5 séculos; as lutas feministas; uma
				nova cultura de participação e democracia; o respeito à diversidade.</p>
			<p>Seria esse <italic>ethos</italic> uma utopia? Esta é uma palavra-chave para
				compreendermos a educação popular enquanto movimento permanente para a transformação
				social; assim como é palavra-chave para compreendermos a cidadania global não apenas
				enquanto prática, mas também enquanto parte do movimento necessário para que
				continuemos caminhando no século XXI. Utopia aqui não representa o impossível,
				irreal; utopia representa “esperança crítica”. Ela “[...] é, em primeiro lugar, um
				topos da atividade humana orientada para um futuro; um topos da consciência
				antecipadora e a força ativa dos sonhos diurnos” (<xref ref-type="bibr" rid="B8"
					>Freitas, 2010</xref>, p. 489). É por meio da utopia, em sua perspectiva
				freireana, que compreendemos a cidadania global como uma prática voltada à
				transformação social.</p>
			<p>Mas que transformação é essa? Como a utopia leva a cidadania global e a educação
				popular em direção a um horizonte de sentido compartilhado? Oscar <xref
					ref-type="bibr" rid="B11">Jara (2010)</xref> nos ajuda a compreender o sentido
				de transformação social dentro da perspectiva da educação popular diferenciando-a de
				“mudança social”. Enquanto a mudança pode ter caráter parcial e adaptativo, a
				transformação representa um movimento de desacomodação, por vezes de ruptura, com a
				racionalidade vigente. É um processo que busca superar as relações de dominação,
				opressão, discriminação, exploração, desigualdade e exclusão. De uma perspectiva
				crítica, diz <xref ref-type="bibr" rid="B11">Jara (2010</xref>, p. 289), a
				transformação também não é sinônimo de “desenvolvimento” ou “progresso”. Essa
				percepção parece “[...] estar contribuindo para o enfraquecimento da humanidade nas
				relações sociais e a erosão da qualidade de vida”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn3"
						>3</xref></sup>. E qual o lugar da educação neste contexto de mudanças e
				transformações?</p>
			<disp-quote>
				<p>Claramente, existem duas perspectivas conflitantes. A primeira argumenta que
					precisamos de uma educação que se adapte a este mundo em mudança. Esta é a
					proposta das organizações financeiras internacionais, do discurso neoliberal
					dominante, do paradigma da racionalidade instrumental, a partir do qual a
					educação é vista como mais uma mercadoria que deve contribuir para a
					qualificação dos recursos do capital humano para que as sociedades enfrentem com
					sucesso os desafios da competição e inovação. Por outro lado, a segunda visão
					argumenta que precisamos de uma educação que contribua para mudar o mundo,
					tornando-o mais humano. Esta perspectiva busca educar as pessoas como agentes de
					mudança com a capacidade de influenciar as relações econômicas, políticas,
					sociais e culturais como sujeitos de transformação. Esta é a perspectiva da
					racionalidade ética e emancipadora<sup><xref ref-type="fn" rid="fn4"
						>4</xref></sup> (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Jara, 2010</xref>, p.
					290).</p>
			</disp-quote>
			<p>Essa racionalidade é um ponto em comum entre a cidadania global e a educação popular.
				Assim como a educação popular, a cidadania global pode ser compreendida como um
				exercício de práticas com intencionalidade transformadora. Ela fundamenta-se em
				princípios ético-políticos para a construção de relações igualitárias e justas entre
				a terra e seus concidadãos.</p>
			<p>Enquanto fenômeno sociocultural e concepção pedagógica (<xref ref-type="bibr"
					rid="B11">Jara, 2010</xref>), a educação popular constitui-se como uma prática,
				um exercício de (re)criação e transformação da realidade. Ela é, por excelência, uma
				utopia, a “mola propulsora indispensável na luta por uma existência humana mais
				digna e um mundo melhor” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Streck, 2023</xref>). Esta
				luta é um exercício de cidadania e, por isso, seja local ou global, é um exercício
				popular. Ao argumentar que há uma relação indissociável entre a cidadania global e a
				educação popular, referimo-nos ao sentido de popular definido por <xref
					ref-type="bibr" rid="B11">Jara (2010)</xref> como uma integração entre as
				dimensões socioculturais e políticas dos sujeitos por meio de uma ação pedagógica. O
				que buscamos ilustrar por meio das ações da Cátedra é que, pelo tema que nos
				propomos a trabalhar, nossas pesquisas inserem-se no campo da educação popular; e
				por nossas pesquisas se inserirem neste campo, a Cátedra se constitui como um lugar
				de educação popular dentro da universidade. Um lugar que pauta e potencializa
				princípios ético-políticos da educação popular, fortalecendo os laços entre
				diferentes culturas e contextos educacionais. Assim, ela contribui para uma
				transformação em sentido amplo, uma transformação em rede, que não apenas se alinha
				em torno dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, como também busca tensionar e
				ressignificar esses objetivos.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Escrevemos este texto orientados por duas questões que gostaríamos de retomar em
				nossa conclusão: podem as Cátedras Unesco ser um lugar de construção deste “popular”
				nas universidades? Quais as contribuições que a pedagogia latino-americana e a
				educação popular para essa grande rede de instituições que se conectam ao redor do
				mundo? Respondendo a primeira questão, acreditamos que sim. As Cátedras UNESCO
				podem, de fato, ser um lugar de construção do “popular” nas universidades,
				promovendo uma educação inclusiva, crítica e transformadora. Estas cátedras atuam
				como plataformas de integração entre ensino, pesquisa e extensão, facilitando a
				colaboração entre a academia e a sociedade civil.</p>
			<p>Não são raras as Cátedras que buscam promover a educação popular (ou decolonial) e
				alinham-se aos princípios da pedagogia crítica. Além da Cátedra Unesco em Educação
				para a Cidadania Global e Justiça Socioambiental, é possível citar como exemplo a
				Cátedra Unesco de Educação de Jovens e Adultos, sediada na Universidade Federal da
				Paraíba (Brasil), a Cátedra Unesco en Educación para la Justicia Social, sediada na
				Universidad Autónoma de Madrid (Espanha), a Unesco Chair on Global Learning and
				Global Citizenship Education, sediada na University of California, Los Angeles
				(Estados Unidos da América) e a Unesco/ Initwin Chair on Values Education - Learning
				to Live Together, sediana na University of Johannesburg (África do Sul) Essas
				cátedras trabalham na promoção de uma consciência planetária, enfatizando a
				importância da superação das desigualdades em uma perspectiva global (Unesco,
				2024).</p>
			<p>A partir da experiência da UCS, buscamos mostrar que as Cátedras têm potencial de
				articulação entre ensino, pesquisa e extensão, promovendo projetos que envolvem a
				comunidade e que buscam incidir sobre a realidade social e ambiental. Ainda, vale
				ressaltar a contribuição para a democratização do conhecimento, uma vez que elas
				atuam como plataformas para a popularização de práticas e projetos que integram
				diferentes culturas e contextos socioeconômicos, políticos e históricos.</p>
			<p>Quanto à segunda questão, buscamos tecer algumas conexões, especialmente a partir de
				Paulo Freire, que articulam a pedagogia latino-americana com a cidadania global. A
				dimensão dialógica e participativa da educação popular, essencial para o
				entendimento crítico da realidade e para transformá-la, se mostrou fundante daquilo
				que compreendemos como cidadania global. Neste sentido, compreendemos que a ideia de
				“utopia”, enquanto uma esperança crítica que orienta a educação para a transformação
				social, se apresenta como um dos sentidos de uma cidadania global.</p>
			<p>Ainda, a formação de redes ao redor do mundo mostra o potencial das Cátedras para
				apresentar a educação popular enquanto princípio ético-político, prática pedagógica
				e horizonte metodológico. Os princípios da educação popular incluem o reconhecimento
				do racismo como estruturante das sociedades latino-americanas, a conexão histórica
				das lutas indígenas e populares, o reconhecimento de outras formas de vida, o
				respeito pela natureza e a promoção de uma nova cultura de participação e
				democracia. Esses valores são essenciais para a construção de uma cidadania que que
				extrapola e questiona a compreensão de globalização como um fenômeno econômico, mas
				o compreende antes de tudo como um movimento social que transcende fronteiras e
				busca a justiça social.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p> Texto revisado e normalizado por Luísa Schenato Staldoni.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p> A cidadania para além das fronteiras dos estados nacionais é expressa também em
					outros termos, como cidadania planetária e cidadania mundial. Optamos pelo
					conceito cidadania global por ser a terminologia adotada pela UNESCO, em cujos
					documentos é expresso que a mesma não substitui a clássica cidadania nacional,
					mas a complementa e qualifica. Um exemplo é o relatório &quot;Global Citizenship
					Education: Topics and Learning Objectives&quot; da UNESCO, que define a
					cidadania global como um senso de pertencimento a uma comunidade mais ampla e à
					humanidade comum, enfatizando a interdependência e a interconectividade
					política, econômica, social e cultural entre o local, o nacional e o global
					(UNESCO, 2015).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p> No original: “contributing to the weakening of the humanity in social
					relationships and the erosion of the quality of life”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p> No original: “Clearly, there are two conflicting perspectives. The first one
					argues that we need an education that adapts itself to this changing world. This
					is the proposal of international financial organizations, the dominant
					neo-liberal discourse, the paradigm of instrumental rationality, from which
					education is seen as another commodity that should contribute to the
					qualification of resources of human capital so that societies successfully face
					the challenges of competition and innovation. On the other hand, the second view
					argues that we need an education that contributes to changing the world, making
					it more humane. This perspective seeks to educate people as agents of change
					with the capacity to influence economic, political, social and cultural
					relationships as subjects of transformation. This is the perspective of ethical
					and emancipating rationality”.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>REfERênCIaS</title>
			<ref id="B1">
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							<surname>ABENDROTH</surname>
							<given-names>Mark.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Rebel Literacy: Cuba’s national literacy campaign and critical global
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					<year>2009</year>
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			<ref id="B2">
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					Acesso em: 9 jul. 2024.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
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							<surname>ANDREOLA</surname>
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					<article-title>A universidade o colonialismo denunciado por Fanon, Freire e
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					<source>Cadernos de Educação</source>
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					<year>2007</year>
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					</comment>
					<date-in-citation>Acesso em: 9 jul. 2024</date-in-citation>
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