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				<journal-title>Rev. FAEEBA - Ed. e Contemp.</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. FAEEBA - Ed. e
					Contemp.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2358-0194</issn>
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				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
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				>10.21879/faeeba2358-0194.2023.v33.n73.p108-123</article-id>
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					<subject>Artigo</subject>
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				<article-title>NEM LÁ NEM CÁ: NA ENCRUZILHADA DAS
					INTERNACIONALIZAçÕES</article-title>
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					<trans-title>NEITHER NOTHING NOR EVERYTHING: AT THE INTERNATIONALIZATIONS’
						CROSSROADS</trans-title>
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					<trans-title>NI ALLÍ NI AQUÍ: EN LA ENCRUCIJADA DE LAS
						INTERNACIONALIZACIONES</trans-title>
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				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0003-0114-3532</contrib-id>
					<name>
						<surname>Prata-Linhares</surname>
						<given-names>Martha Maria</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"/>
					<bio>
						<p>Professora na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), docente
							no Programa de Pós-Graduação em Educação. Doutora em Educação (PUC/SP).
							Líder do Grupo de Pesquisa Forproca. Co-coordenadora da rede IRN/WERA
							Globalization and Teacher Education in The Brics Countries: the
							positioning of research and practice, promotion of integration of
							university-school systems. E-mail:
							<email>martha.prata@gmail.com</email></p>
					</bio>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-5064-1581</contrib-id>
					<name>
						<surname>Botelho</surname>
						<given-names>Daniele Campos</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff2"/>
					<bio>
						<p>Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação (UFTM). Membro do
							Grupo de Pesquisa Formação de Professores, Cultura digital e
							Aprendizagem - Forproca. Email:
							<email>daniele.dx@hotmail.com</email></p>
					</bio>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0003-2112-1760</contrib-id>
					<name>
						<surname>Tristão</surname>
						<given-names>Isadora Maria Oliveira</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff3"/>
					<bio>
						<p>Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação (UFTM). Membro do
							Grupo de Pesquisa Formação de Professores, Cultura digital e
							Aprendizagem - Forproca. Email:
								<email>isadora.tristao14@gmail.com</email></p>
					</bio>
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					Mineiro</institution>
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					Mineiro</institution>
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				<month>05</month>
				<year>2024</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Jan-Mar</season>
				<year>2024</year>
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			<volume>33</volume>
			<issue>73</issue>
			<fpage>108</fpage>
			<lpage>123</lpage>
			<history>
				<date date-type="received">
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					<year>2023</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
					<day>21</day>
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					<year>2023</year>
				</date>
			</history>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Este artigo aborda as políticas de internacionalização na formação docente no
					Brasil, examinando programas de cooperação internacional. Ele debate
					perspectivas adotadas na internacionalização da educação no contexto brasileiro,
					destacando a necessidade de equilibrar abordagens econômicas e socioculturais.
					Com isso, questiona a influência de organismos internacionais, como o Banco
					Mundial, e aponta a falta de editais de internacionalização com países
					sul-americanos, em contraste com as iniciativas regionais do Mercosul. Nas
					considerações finais são oferecidas sugestões para futuros debates, enfatizando
					a importância de fortalecer tanto as relações entre países sul-sul quanto as
					relações norte-sul, e destacando a formação para a cidadania global e o respeito
					à diversidade e ao multiculturalismo.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This paper approaches internationalization policies in teacher education in
					Brazil, analyzing international cooperation programs. It discusses the
					understandings adopted in educational internationalization in the Brazilian
					context, highlighting the demand for balancing economic and sociocultural
					perspectives. This way, it questions the influence of international
					organizations such as the World Bank. It indicates the lack of selective
					processes for internationalization among South American countries, unlike
					Mercosur’s regional initiatives. In the final considerations, we suggest themes
					for future debates and emphasize the importance of strengthening relations
					between south-south and north-south countries, highlighting education for global
					citizenship and respect for diversity and multiculturalism.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>Este artículo aborda las políticas de internacionalización en la formación
					docente en Brasil, examinando programas de cooperación internacional. Debatimos
					las perspectivas adoptadas en la internacionalización de la educación en el
					contexto brasileño, destacando la necesidad de equilibrar enfoques económicos y
					socioculturales. Con esto, cuestionamos la influencia de organismos
					internacionales, como el Banco Mundial, y señala la falta de convocatorias de
					internacionalización con países sudamericanos, en contraste con las iniciativas
					regionales del Mercosur. En las consideraciones finales, se ofrecen sugerencias
					para futuros debates, enfatizando la importancia de fortalecer tanto las
					relaciones entre países del sur como las relaciones norte-sur, y resaltando la
					formación para la ciudadanía global y el respeto a la diversidad y
					multiculturalismo.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave</title>
				<kwd>Formação de professores</kwd>
				<kwd>Política da educação</kwd>
				<kwd>Integração educativa internacional</kwd>
				<kwd>Internacionalização da educação</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Teacher education</kwd>
				<kwd>Educational policy</kwd>
				<kwd>International cooperation education</kwd>
				<kwd>Internationalization of education</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>Formación del profesorado</kwd>
				<kwd>Políticas educativas</kwd>
				<kwd>Cooperación internacional</kwd>
				<kwd>Internacionalización de la educación</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução<sup><xref ref-type="fn" rid="fn4">1</xref></sup></title>
			<p>Na era da crescente interconexão global, impulsionada pela cultura digital e as
				tecnologias digitais que continuamente trazem novas comodidades para nossa vida
				social, a internacionalização emerge como um movimento de fortalecimento dos
				processos de globalização. Esta dinâmica transcende para o campo educacional,
				adquirindo maior relevância a partir da década de 1990, quando as discussões sobre a
				internacionalização da educação superior passam a ocupar o centro do palco global
					(<xref ref-type="bibr" rid="B19">Morosini, 2006</xref>), intensificando a ideia
				de uma sociedade global do conhecimento (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Zgaga,
					2015</xref>).</p>
			<p>Um importante marco no processo de internacionalização do ensino superior ocorreu com
				a assinatura do Tratado de Bolonha em 1999, envolvendo 29 países europeus. Este
				tratado, impulsionado por razões financeiras, visava fortalecer a competitividade
				econômica da União Europeia e tornar o ensino superior mais atrativo na Europa. Isso
				levou à criação de um sistema de ensino superior que promoveu a mobilidade de
				estudantes, professores e trabalhadores, mantendo padrões elevados de qualidade e
				equivalência de créditos (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Marques; Agustí,
					2012</xref>).</p>
			<p>A União Europeia reconheceu a importância da educação e da possibilidade de
				mobilidade estudantil para uma melhoria na qualidade de vida dos cidadãos e sua
				posição global. Com isso, o Tratado de Bolonha foi lançado visando preparar os
				estudantes para a sociedade baseada no conhecimento, e tentando também atrair
				estudantes de todo o mundo (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bianchetti; Magalhães,
					2015</xref>). O Espaço Europeu de Educação Superior foi criado para unificar
				práticas acadêmicas, incentivando a mobilidade e a integração regional. Isso
				impulsionou uma estratégia complexa de internacionalização do ensino superior, que
				alcançou sucesso parcial devido à sua evolução constante (<xref ref-type="bibr"
					rid="B15">Marques; Agustí, 2012</xref>).</p>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B1">Arana, Pereira e Peres (2021)</xref>, é a
				partir dos anos 2000 que, na América Latina, ganham força ações de cooperação
				internacional entre universidades, como desenvolvimento de pesquisas em conjunto
				entre instituições de ensino, promoção de intercâmbio de docentes e constituição de
				redes como a Rede Ibero-americana para Acreditação da Qualidade da Educação Superior
				(Iaces) e União das Universidades da América Latina e do Caribe (Udual) - embora
				factualmente a internacionalização da educação superior na América Latina tenham
				dado seus primeiros passos na década de 1950, quando famílias da elite social
				enviaram seus filhos para estudar em países estrangeiros, principalmente na
				Europa.</p>
			<p>Para melhor compreender os desdobramentos do processo de internacionalização no campo
				educacional, é preciso preliminarmente definir o vocábulo. Ainda que as ideias de
				intercâmbio, mobilidade estudantil, e redes internacionais de cooperação acadêmica
				possam participar do entendimento do que vem a ser internacionalização, elas não
				esgotam o termo. Com a variedade de conceitos e perspectivas que orbitam o tema da
				internacionalização, não se verifica consenso estabelecido na literatura para sua
				definição. Vale dizer, ainda, que o vocábulo traz consigo complexidades e
				particularidades a depender da corrente teórica adotada, o que pode gerar
				mal-entendidos quando os aportes teóricos empregados não estão claros.</p>
			<p>Abrimos, então, a tarefa de conceituar o termo internacionalização, com a definição
				dada por <xref ref-type="bibr" rid="B13">Knight (2020)</xref>. A autora elucida
				internacionalização como um importante “processo de mudança” evolutivo e
				multifacetado, que impacta e molda a educação superior na medida em que esta se
				transforma e é transformada para adaptar-se aos novos desafios do século XXI. Nesse
				sentido, <xref ref-type="bibr" rid="B13">Knight (2020, p. 24)</xref> define
				internacionalização no campo educacional como “o processo de integração de uma
				dimensão internacional, intercultural ou global, nas finalidades, nas funções ou na
				oferta de instituições ou sistemas de educação pós-secundária”, em que as dimensões
				“internacional”, “intercultural” e “global” traduzem a amplitude marcante do
				processo de internacionalização que se faz necessário salientar. Já as palavras
				“finalidades”, “funções” e “oferta” foram escolhidas pela autora para destacar a
				relação da internacionalização com a educação geral, o sistema de ensino nacional e
				programas de educação em uma dada nação.</p>
			<p>A princípio, essa definição aponta um caminho para o discernimento almejado. Todavia,
					<xref ref-type="bibr" rid="B13">Knight (2020)</xref> reconhece que há muito mais
				em jogo quando se discute internacionalização e declara que essa definição busca
				propositalmente ser neutra por empenhar-se em descrever objetivamente um fenômeno
				que é universal.</p>
			<p>No contexto da discussão que elaboramos neste trabalho, a internacionalização da
				educação superior é vista como um processo que envolve uma série de atividades
				internacionais, como a mobilidade acadêmica de estudantes e professores, parcerias e
				projetos internacionais, e o desenvolvimento de programas acadêmicos e iniciativas
				de pesquisa com dimensões internacionais (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Knight,
					2004</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B2">Barbosa; Neves, 2020</xref>). A
				conceituação ainda é reforçada por <xref ref-type="bibr" rid="B34">Wit <italic>et
						al</italic>. (2015, p. 29)</xref> ao discutir sobre uma dimensão intencional
				deste processo:</p>
			<disp-quote>
				<p>O processo intencional de integrar uma dimensão internacional, intercultural ou
					global no propósito, nas funções e na oferta da educação pós-secundária, a fim
					de aprimorar a qualidade da educação e da pesquisa para todos os estudantes e
					funcionários, e também de contribuir de forma significativa para a sociedade
						(<xref ref-type="bibr" rid="B34">Wit <italic>et al.,</italic> 2015</xref>,
					p. 29, tradução nossa).</p>
			</disp-quote>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B12">Knight (2018, p. 103)</xref> analisa que a
				necessidade de uma definição surge com a intenção de descrever um fenômeno
				universal, porém, sujeito a diferentes propósitos e resultados de acordo com os
				indivíduos interessados e com contexto específico. Assim, destacamos a ênfase no
				aspecto intencional da internacionalização, o qual permite direcionar a atenção para
				as políticas, ações institucionais e estratégias voltadas a essa finalidade.</p>
			<p>Ao analisar as características da internacionalização, tanto no passado quanto na
				atualidade, é possível discernir a evolução do processo de internacionalização no
				ensino superior ao longo do tempo (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Barbosa; Neves,
					2020</xref>). Conforme elucidado por <xref ref-type="bibr" rid="B14">Knight e
					Wit (2018)</xref>, a internacionalização do ensino superior era concebida no
				passado principalmente como cooperação internacional, intercâmbio estudantil,
				estudos no exterior, parcerias de pesquisa, cooperação entre duas nações, educação
				multicultural, entre outros elementos afins. Contudo, nos dias atuais, a
				internacionalização é abordada em temas mais amplos e, em alguns casos, até mesmo
				conflitantes. Dentre esses temas, podemos citar a globalização, a regionalização, as
				classificações globais, a aquisição de habilidades internacionais, as duplas
				titulações, a cooperação internacional, as redes de pesquisa, as universidades
				virtuais, os conglomerados educacionais, a criação de campo internacionais, dentre
				outras práticas que se alinham a este contexto.</p>
			<p>Faz-se necessário, então, encaminhar a problemática da discussão para reconhecer que
				esse fenômeno adquire diferentes sentidos, propósitos e impactos a depender das
				partes interessadas. Apontaremos essas questões logo mais adiante.</p>
			<p>Este trabalho propõe-se a debater, no cenário educacional brasileiro, estratégias e
				perspectivas adotadas na internacionalização na área da educação. Para isso,
				dividimos o texto em cinco seções. Na primeira, a <italic>Introdução,</italic>
				contextualizamos o tema. Na segunda seção, intitulada <italic>Educação Superior e
					Internacionalizações: perspectivas norte e sul e o Brasil nesse
					contexto</italic>, apresentamos perspectivas e possibilidades de
				internacionalizações, problematizando os interesses políticos e econômicos que as
				sustentam, e marcando a pluralidade do fenômeno discutido. <italic>As políticas de
					internacionalização no campo de formação docente no Brasil</italic> é a terceira
				seção e nela direcionamos o debate para o campo de investigação científica Formação
				de Professores, apresentando o panorama brasileiro de políticas e programas voltados
				para uma formação docente internacionalizada. Na quarta seção, <italic>Percepções
					sobre a internacionalização da educação no Brasil: cidadania global, um
					horizonte a perseguir</italic>, analisamos o levantamento de uma pesquisa
				anteriormente realizada e alguns dados cedidos pela Coordenação de Aperfeiçoamento
				de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pela Organização das Nações Unidas para
				Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Na quinta e última seção, <italic>Nem oito nem
					oitenta: um caminho pelo meio como alternativa para superar fronteiras</italic>,
				apresentamos nossas considerações finais, trazendo sugestões de temas para a
				continuidade do debate e defendendo uma internacionalização da educação superior
				ponderada pela divulgação e pelo desenvolvimento científico, capaz de fortalecer
				tanto as relações sul-sul quanto as relações norte-sul, desde que seu propósito
				final esteja em consonância com dois princípios: a formação de uma cidadania global
				e o respeito ao multiculturalismo e à diversidade.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Educação Superior e Internacionalizações: perspectivas norte e sul e o Brasil
				nesse contexto</title>
			<p>Conforme já mencionado, a internacionalização da educação é um processo complexo,
				cuja concepção depende dos interesses das partes envolvidas. A epistemologia adotada
				na compreensão do fenômeno é determinante para analisar os sentidos, práticas e
				resultados atribuídos à internacionalização.</p>
			<p>Em análise à constituição histórica das relações de poder das nações no mundo,
				reconhece-se um cenário global profundamente estratificado em matéria de recursos
				econômicos e, consequentemente, detenção de conhecimentos científicos e
				tecnológicos. A fim de nomear e caracterizar a conjuntura socioeconômica
				internacional, a ciência geopolítica define terminologias como <italic>Países de
					Primeiro, Segundo e Terceiro Mundos</italic> e <italic>Países desenvolvidos e
					Países em Desenvolvimento</italic>. Mais atualizadas presentemente, essas
				terminologias foram substituídas pela divisão <italic>Países do norte</italic> e
					<italic>Países do sul</italic>.</p>
			<p>A divisão entre os países do norte e os países do sul é uma expressão da disparidade
				de poder, recursos e influência que permeia o cenário internacional. Países do
				hemisfério norte muitas vezes ditam as agendas globais, moldando as políticas. Isso
				pode refletir diretamente nas estratégias educacionais adotadas, influenciando o
				currículo escolar, os métodos de ensino e os objetivos da educação em geral.
				Contudo, “o sul” não é passivo em relação a essa dinâmica: muitos países do sul
				desenvolvem suas próprias abordagens educacionais, de forma a questionar, criticar e
				(re)pensar os modelos globalmente dominantes (<xref ref-type="bibr" rid="B24"
					>Oliveira, 2018</xref>).</p>
			<p>Portanto, a compreensão das dinâmicas entre norte e sul é fundamental para avaliar as
				tendências na educação e suas implicações políticas (<xref ref-type="bibr" rid="B20"
					>Morosini; Dalla Corte; Guilherme, 2017</xref>). De acordo com os autores, no
				Brasil, a internacionalização do ensino superior é recente e concentra-se
				principalmente em práticas de mobilidade acadêmica e bolsas financiadas por órgãos
				nacionais, como a Capes e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
				Tecnológico (CNPq). No entanto, essa mobilidade priorizou tradicionalmente países
				europeus e norte-americanos (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Pontes Júnior; Abreu;
					Pereira Neto, 2023</xref>). É importante ressaltar, conforme já investigaram
					<xref ref-type="bibr" rid="B18">Miranda e Stallivieri (2017)</xref>, a escassez
				de uma direção governamental uníssona na forma de política pública nacional para a
				internacionalização da Educação Superior no Brasil. Segundo os autores, o tema é
				conduzido, por vezes, pelas próprias universidades brasileiras, em um esforço de
				desenvolver projetos de colaboração internacional em pesquisas e intercâmbio de
				estudantes, porém de forma nem sempre articulada.</p>
			<p>Recentemente, houve um aumento na concessão de bolsas para outras regiões, como
				África, Ásia, América do Sul e Oceania (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Pontes
					Júnior; Abreu; Pereira Neto, 2023</xref>). Contudo, a mobilidade internacional
				na América Latina continua dependente das relações norte-sul e carece de estratégias
				sólidas de internacionalização (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Pinto; Larrechea,
					2018</xref>). Vale lembrar que o cerne da internacionalização não reside na
				mobilidade internacional, mas em como essa mobilidade pode ser explorada para
				aprimorar os programas de estudo e as experiências de aprendizado, em benefício de
				todos (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Wit; Hunter, 2015</xref>). A
				internacionalização no ensino superior não deve ser encarada como um objetivo final,
				mas sim como uma abordagem estratégica destinada a aprimorar a educação acadêmica,
				promover a disseminação do conhecimento e servir como um veículo para a aproximação
				entre culturas, dentro do contexto de uma cidadania ativa, solidária e global (<xref
					ref-type="bibr" rid="B10">Gacel-Ávila, 2006</xref>).</p>
			<p>Valores humanistas, como respeito à diversidade cultural, solidariedade e
				participação cívica, são fundamentais para uma internacionalização significativa
					(<xref ref-type="bibr" rid="B4">Cachapuz, 2020</xref>). Esses valores estão
				alinhados com os princípios da <xref ref-type="bibr" rid="B31">Unesco (2009)</xref>
				que também abrangem demandas como a facilitação da interlocução entre culturas e o
				estímulo ao desenvolvimento econômico (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Morosini;
					Dalla Corte, 2018</xref>).</p>
			<p>A mobilidade acadêmica em países do sul, incluindo o Brasil, está ligada aos fluxos
				migratórios contemporâneos e à integração regional (<xref ref-type="bibr" rid="B27"
					>Sena, 2013</xref>). No entanto, as políticas de internacionalização ainda são
				influenciadas pelos países do norte (Pontes Júnior; Abreu; Pereira Neto). Autores
				como <xref ref-type="bibr" rid="B27">Sena (2013)</xref>, <xref ref-type="bibr"
					rid="B30">Tavares (2016)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B12">Knight
					(2018)</xref> enfatizam a importância de uma abordagem horizontal na
				internacionalização, em contraposição à relação histórica vertical norte-sul.</p>
			<p>Sob a perspectiva de países emergentes, fundamentamos a importância de conceber e
				valorizar múltiplas culturas, além de reconhecer as diferenças intrínsecas entre
				sociedades do nosso planeta (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Sena, 2013</xref>;
					<xref ref-type="bibr" rid="B7">Dalla Corte, 2017</xref>). Assim, emerge uma
				conscientização crítica sobre a persistência do “colonialismo” nas relações globais,
				em que os países do norte historicamente exerceram poder e influência sobre os
				países do sul. Essa dinâmica desigual foi muitas vezes marcada por relações
				historicamente construídas na exploração econômica e cultural, impondo uma visão
				unidimensional do conhecimento e da civilização.</p>
			<p>Não analisamos, no entanto, a necessidade de um pensamento decolonial associado à
				ideia de rompimento com as políticas de internacionalização pensadas pelos países do
				norte. Reiteramos a desconstrução do colonialismo intelectual e cultural, permitindo
				que as epistemologias dos países do hemisfério sul também contribuam para a
				construção de conhecimento global. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B7"
					>Dalla Corte (2017)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B27">Sena (2013)</xref> e
					<xref ref-type="bibr" rid="B30">Tavares (2016)</xref>, as estratégias de
				internacionalização no século XXI estão ancoradas na concepção de horizontalidade
				entre os países do sul, em contraposição à verticalidade histórica da relação
				norte-sul.</p>
			<p>Corroboramos com <xref ref-type="bibr" rid="B12">Knight (2018, p. 64)</xref> ao
				pensar a internacionalização como um “processo de mudança” que tem em seu cerne
				perspectivas e anseios das instituições educacionais e não pode acontecer de forma
				“genérica”. Portanto, a adoção indiscriminada de modelos de internacionalização,
				desconsiderando os contextos locais, configura-se como um reforço da relação
				hegemônica a ser superada.</p>
			<p>Pensando na perspectiva da internacionalização da educação superior brasileira na
				área de Educação, e mais precisamente, para a formação de professores, encaminhamos
				o debate para as questões das políticas educacionais para a formação de professores
				no Brasil e as práticas de internacionalização nesse campo.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>As políticas de internacionalização no campo de formação docente no
				Brasil</title>
			<p>No Brasil, a mobilidade enquanto prática de internacionalização da maioria dos
				estudantes é financiada por meio de editais, acordos e organizações, tanto públicas
				quanto privadas, de apoio à graduação e pós-graduação. As Instituições de Ensino
				Superior (IES) têm o papel fundamental de serem construídas e pensadas como espaços
				de produção e divulgação do conhecimento científico-acadêmico, fundamentadas na
				valorização e contribuição para pesquisas internacionais e a mobilidade
				internacional de acadêmicos (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Costa; Canen,
					2022</xref>). Nesse contexto, emergem perspectivas que impulsionam as políticas
				públicas de educação em nível nacional que se afastam de fundamentos puramente
				econômicos e políticos, e mostram-se mais com objetivos sociais e educacionais
					(<xref ref-type="bibr" rid="B14">Knight; Wit, 2018</xref>).</p>
			<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B6">Costa e Canen (2022)</xref>, é
				responsabilidade das IES o fortalecimento da comunidade científica e da pesquisa
				brasileira, em detrimento de uma valorização exclusiva da mobilidade acadêmica
				internacional em si, sob pretextos econômicos e políticos. Isso não significa que
				fomentar a mobilidade internacional nessa visão não seja um benefício. Entretanto,
				corroboramos com <xref ref-type="bibr" rid="B14">Knight e Wit (2018)</xref> quando
				dizem que deve haver um equilíbrio com as motivações sociais/culturais dos
				estudantes e acadêmicos. Lembramos que a internacionalização tem potencial para
				contribuir com a valorização da diversidade ao criar um ambiente universitário que
				promove a colaboração entre diferentes pessoas, culturas e idiomas, tornando-a
				global.</p>
			<p>O primeiro projeto de Cooperação Internacional da Capes já completa 44 anos e com
				resultados de uma trajetória de sucesso entre Brasil e França. Em informativo
				publicado em 2023 (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Capes, 2023</xref>), foram
				contabilizados 77 acordos com diversas universidades, sendo 37 com projetos ativos,
				e mais de 1,3 mil pesquisadores brasileiros em cerca de 450 diferentes projetos de
				pesquisa.</p>
			<p>Sob uma perspectiva socioeconômica, podemos avaliar a influência do Banco Mundial nos
				processos de reformas educacionais brasileiras vivenciadas desde os anos de 1990,
				mudando os rumos das políticas públicas educacionais adotadas nacionalmente (<xref
					ref-type="bibr" rid="B22">Mota Junior; Maués, 2014</xref>). Organismos como o
				Banco Mundial, Unesco, a Organização Mundial de Comércio (OMC) e a Organização para
				Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) têm orientado as políticas
				educacionais em países periféricos desde o final do século XX.</p>
			<p>Deste modo, o Banco Mundial analisa a internacionalização educacional como um
				processo essencial para que o Brasil seja inserido em um contexto competitivo
				mundial (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Oliveira; Grike; Todeschini, 2017</xref>).
				Nessa perspectiva, percebemos e alertamos para o perigo de uma abordagem puramente
				economicista da educação, em que há uma minimização da dimensão crítico-social
				quando priorizada uma formação de natureza tecnicista voltada para atender às
				exigências capitalistas globais do século XXI.</p>
			<p>Neste contexto, analisamos a internacionalização da educação na formação docente por
				meio dos Programas de Cooperação Internacional de Formação de Professores da
				Educação Básica fomentados pela Capes e intitulados por ela de programas de
				capacitação de professores da educação básica pública. Os programas são ação
				conjunta entre a Diretoria de Relações Internacionais (DRI) e a Diretoria de
				Formação de Professores da Educação Básica (DEB) associados a universidades no
				exterior.</p>
			<p>Os programas adotam duas estratégias: acordos bilaterais e parcerias universitárias
				entre diferentes países. A primeira está relacionada a projetos conjuntos de
				pesquisa entre brasileiros e estrangeiros ligados a programas de pós-graduação e a
				segunda diz sobre uma aproximação curricular entre as Instituições de Ensino
				Superior, conectadas por estudantes de graduação, pós-graduação e professores.</p>
			<p>Até o momento, a Capes tem impulsionado cinco iniciativas de internacionalização do
				desenvolvimento docente. Estas incluem: o <italic>Programa de Desenvolvimento de
					Profissionais da Educação Básica no Canadá</italic>, o <italic>Programa de
					Desenvolvimento de Profissionais da Educação Básica na Irlanda</italic>, o
					<italic>Programa de Desenvolvimento Profissional para Professores de Língua
					Inglesa nos Estados Unidos</italic> (PDPI), o <italic>Mercosul
					Educacional</italic> e o <italic>Programa de Desenvolvimento Profissional de
					Professores Alfabetizadores em Portugal</italic>.</p>
			<p>Conforme o <xref ref-type="table" rid="t1">Quadro 1</xref>, analisamos que o PDPI,
				que visa o desenvolvimento profissional de professores de Língua Inglesa nas escolas
				públicas brasileiras, teve início em 2010, nos Estados Unidos. Inicialmente o número
				de bolsas era limitado, mas, ao longo dos anos, houve um aumento significativo no
				número de participantes.</p>
			<table-wrap id="t1">
				<label>Quadro 1</label>
				<caption>
					<title>Iniciativas Capes de internacionalização do desenvolvimento profissional
						docente (2019-2022)</title>
				</caption>
				<table>
					<thead>
						<tr>
							<th align="center" style="background-color: #C1D7EC;">PROGRAMA</th>
							<th align="center" style="background-color:#C1D7EC;">PAÍS DE
								DESTINO</th>
							<th align="left" style="background-color:#C1D7EC;">ANO DE CRIAçÃO</th>
							<th align="center" style="background-color:#C1D7EC;">EDITAIS</th>
							<th align="center" style="background-color:#C1D7EC;"
											>OBJETIVO<sup><sup><xref ref-type="table-fn" rid="TFN1"
											>*</xref></sup></sup></th>
							<th align="center" style="background-color:#C1D7EC;">Nº DE BOLSAS</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left">Programa de <break/>Desenvolvimento de Profissionais da
								<break/>Educação Básica no Canadá</td>
							<td align="left">Canadá</td>
							<td align="left">2019</td>
							<td align="left">03/2019<break/>31/2019</td>
							<td align="left">Capacitação de professores em efetivo exercício nas
								escolas públicas brasileiras, visando a aprendizagem do aluno e a
								gestão de sala de aula. </td>
							<td align="center">204 bolsas -<break/>102 para cada edital</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#E6E7E8;">Programa de
								<break/>Desenvolvimento de Profissionais da <break/>Educação Básica
								na Irlanda</td>
							<td align="left" style="background-color:#E6E7E8; ">Irlanda </td>
							<td align="left" style="background-color:#E6E7E8; ">2019</td>
							<td align="left" style="background-color:#E6E7E8;"
								>02/2019<break/>43/2022</td>
							<td align="left" style="background-color:#E6E7E8;">Capacitação dos
								profissionais que atuam na docência, na direção, coordenação ou
								supervisão pedagógica das escolas da rede pública de educação
								básica, por meio da realização de curso de especialização em
								educação.</td>
							<td align="center" style="background-color:#E6E7E8;">60 bolsas
								-<break/>30 para cada edital</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Programa de <break/>Desenvolvimento
								<break/>Profissional para <break/>Professores de <break/>Língua
								Inglesa nos <break/>Estados Unidos - (PDPI)</td>
							<td align="left">Estados Unidos</td>
							<td align="left">2010</td>
							<td align="left"
								>52/2010<break/>35/2011<break/>44/2012<break/>39/2013<break/>19/2017<break/>04/2019<break/>30/2019</td>
							<td align="left">Capacitação de professores de língua inglesa, que
								estejam em efetivo exercício nas escolas públicas de educação
								básica, oferecendo curso intensivo nos Estados Unidos.</td>
							<td>2.601 bolsas. <break/>Respectivamente: <break/>20; 50; 540; 540;
								<break/>479; 486; 486</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#E6E7E8;">Programa de
								<break/>Desenvolvimento <break/>Profissional de Professores
								<break/>Alfabetizadores em Portugal</td>
							<td align="left" style="background-color:#E6E7E8; ">Portugal</td>
							<td align="left" style="background-color:#E6E7E8; ">2022</td>
							<td align="left" style="background-color:#E6E7E8;">17/2022</td>
							<td align="left" style="background-color:#E6E7E8;">Capacitação de
								profissionais da educação que atuam na área de alfabetização e que
								estejam em efetivo exercício nas redes públicas de educação básica,
								por meio do curso de aperfeiçoamento denominado &quot;Alfabetização
								Baseada na Ciência <break/>(ABC)&quot;, promovido pela
								<break/>Universidade do Porto (FPCEUP) e Instituto
								<break/>Politécnico do Porto (IPP).</td>
							<td align="center" style="background-color:#E6E7E8;">100 bolsas em um
								único edital</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" colspan="5" style="background-color:#C1D7EC;"
								>Total</td>
							<td align="center" style="background-color:#C1D7EC;">2.965 bolsas</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib><bold>Fonte</bold>: Elaborado pelas autoras com base nos dados da <xref
							ref-type="bibr" rid="B5">Capes (2023)</xref>.</attrib>
					<fn id="TFN1">
						<label>*</label>
						<p> Optamos por deixar o termo “capacitação”, em vez de “formação”, pois é o
							termo usado pela Capes</p>
					</fn>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
			<p>Em 2019, foram lançados programas semelhantes na Irlanda e no Canadá, ampliando as
				oportunidades de desenvolvimento profissional para professores brasileiros. No
				entanto, a falta de menção a novos editais em cooperação com o Canadá após a
				pandemia levanta questões sobre a continuidade desses programas.</p>
			<p>Embora a expansão dos programas de cooperação internacional pareça uma iniciativa
				positiva, e com potencial de contribuir com o desenvolvimento profissional de
				professores brasileiros, é necessário questionar algumas questões. A distribuição
				das bolsas e critérios de seleção variaram ao longo do tempo, o que pode gerar
				desigualdades no acesso a essas oportunidades. Além disso, é fundamental que esses
				programas sejam avaliados criticamente quanto à sua acessibilidade, igualdade de
				oportunidades e capacidade de adaptação a desafios como a pandemia de Covid-19. A
				partir dos editais, observamos que pandemia de Covid-19 impactou diretamente o
				cronograma e a a questão da robustez e da adaptabilidade das continuidade desses
				programas, o que levanta políticas de cooperação internacional.</p>
			<p>Um outro ponto que chamamos atenção é o regional promovidas pelo Setor Educacional
				fato da Capes não ter editais de internacionalido Mercosul (SEM), cujo propósito é
				criar um zação com os países da América do Sul. Nesse espaço educacional
				compartilhado que coespaço, observamos iniciativas de integração necte a educação
				com a integração dos países membros. Sua missão é articular políticas que unam a
				educação e a integração do Mercosul, promovendo mobilidade, intercâmbio e uma
				identidade regional. O objetivo principal é “alcançar uma educação de qualidade para
				todos, com atenção especial para os setores mais vulneráveis em um processo de
				desenvolvimento com justiça social e respeito pela diversidade cultural dos povos da
				região” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Mercosul Universitário, 2015</xref>, p.
				27).</p>
			<p>Como levantado anteriormente, o cenário educacional evidencia a urgência de se pensar
				políticas públicas para este campo , envolvendo, assim, a Formação Continuada de
				Professores (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Dri; Silva, 2019</xref>). Em novembro de
				2011, foi estabelecido um acordo entre a União Europeia e o Setor Educacional do
				Mercosul, resultando na instituição do Programa de Apoio ao Sistema Educacional do
				Mercosul (Pasem). O propósito subjacente a este programa consistiu na concepção e
				implementação de medidas que contribuíssem para o aprimoramento da formação inicial
				e o desenvolvimento profissional dos docentes na região, com ênfase na elaboração e
				gestão de políticas públicas para a formação e o desenvolvimento profissional
				docente, no reconhecimento de estudos, na aquisição de competências linguísticas em
				espanhol e português como línguas estrangeiras, na alfabetização e na utilização das
				Tecnologias de Informação e Comunicação para o ensino e aprendizagem, bem como no
				fortalecimento dos laços institucionais (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Dri; Silva,
					2019</xref>).</p>
			<p>Apesar do encerramento do Pasem em 2016, o plano de ação do SEM entre 2016-2020
				demonstra influência do acordo anterior no estabelecimento de políticas
				educacionais: estágios de intercâmbio entre professores dos países envolvidos no
				programa; concurso de experiências inovadoras; subvenções a redes; pesquisas e
				estudos sobre formação docente; e seminários regionais, fatos que evidenciam como a
				formação continuada tem se tornado elemento central na agenda das políticas
				internacionais e regionais para a educação (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Dri;
					Silva, 2019</xref>).</p>
			<p>De acordo com a o “Documento Convocatório de Equipes Conteudistas para o
				Desenvolvimento de Percurso Formativo sobre Cidadania Regional nas Condições Gerais
				do Mercosul”, publicado no site da Capes em março de 2022:</p>
			<disp-quote>
				<p>Esta proposta surge como forma de contribuir a um dos objetivos do Plano do Setor
					Educacional do MERCOSUL 2016-2020: “Gerar e disseminar conhecimentos,
					experiências e informações nacionais e regionais de interesse geral para os
					países participantes.” Também nasce da convicção de que a construção da região
					requer uma tarefa pedagógica que atribui centralidade ao papel do professor
					(PASEM; 2015). Com a melhoria da qualidade educacional como horizonte, é lançada
					a primeira proposta formativa organizada da CA-FD sobre o tema da cidadania
					regional (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Mercosul, 2023</xref>, p. 1, tradução
						nossa<italic>)</italic>.</p>
			</disp-quote>
			<p>Observamos que as políticas de Formação Continuada de Professores formuladas pelo
				Setor Educacional do Mercosul se apresentam como ações de facilitação do acesso de
				docentes a possibilidades de desenvolvimento profissional com qualidade, em
				conformidade com uma agenda internacional.</p>
			<p>Em um contexto no qual as políticas de formação de professores ganham maior
				amplitude, identificamos, a partir da análise dos Programas de Cooperação
				Internacional de Formação de Professores da Educação Básica, contribuições positivas
				para o desenvolvimento profissional: vislumbra-se ampliação dos horizontes práticos
				docentes, possibilitando novas perspectivas para lidar com os desafios
				educacionais.</p>
			<p>Neste contexto de políticas de internacionalização no campo de formação docente no
				Brasil, é importante considerar as motivações subjacentes a essas iniciativas.
				Embora a expansão dos programas de cooperação internacional pareça positiva, como já
				mencionado, ela levanta questões importantes sobre igualdade de acesso e adaptação a
				desafios como a pandemia de Covid-19. Além disso, a influência de organismos
				internacionais, como o Banco Mundial, na orientação das políticas educacionais do
				país deve ser vista com cautela, pois pode resultar em abordagens puramente
				economicistas que negligenciam dimensões crítico-sociais da educação. Além disso, a
				falta de editais de internacionalização com países sul-americanos contrasta com
				iniciativas de integração regional promovidas pelo Setor Educacional do Mercosul,
				destacando a importância de políticas que considerem a formação continuada de
				professores como elemento central na agenda educacional. Em resumo, enquanto esses
				programas têm o potencial de contribuir com o desenvolvimento profissional dos
				professores, é fundamental abordá-los de forma crítica e reflexiva, considerando
				seus impactos sociais, econômicos e regionais.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Percepções sobre a internacionalização da educação no Brasil: cidadania global,
				um horizonte a perseguir</title>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B28">Souza (2016)</xref>, em sua dissertação de mestrado,
				publicada em 2016, mapeou os dados referentes aos processos de internacionalização
				fomentados pela Capes no âmbito do desenvolvimento profissional docente, trazendo a
				relevância dos programas gerenciados pela agência no sentido de garantia de acesso a
				formações continuadas para professores da educação básica. A participação em
				programas de formação no exterior exerce um impacto positivo no processo de
				internacionalização da educação básica. Isso ocorre porque a valorização dos
				educadores por meio desses cursos resulta em um aumento significativo da confiança e
				motivação dos educadores (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Souza, 2016</xref>).</p>
			<p>No entanto, compreender a internacionalização da educação não significa apenas
				reconhecer suas vantagens, mas também enfrentar os desafios que ela apresenta. No
				trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B28">Souza (2016)</xref> identificamos dados
				coletados e analisados sobre os projetos de internacionalização da Capes até o ano
				de 2016, nos quais é possível identificar que a saída para o exterior nos processos
				de desenvolvimento profissional se concentrou exclusivamente com destino a países do
				hemisfério norte: Estados Unidos (1.286), Portugal (168), Suíça (101), Inglaterra
				(99), França (55), Alemanha e Áustria (22).</p>
			<p>Assim como <xref ref-type="bibr" rid="B28">Souza (2016)</xref>, identificamos, também
				em nossa busca nos dados disponibilizados pela Capes, o estabelecimento de uma
				relação exclusiva entre Brasil e países do hemisfério norte. Nos editais mais
				recentes publicados pela agência, a internacionalização no sentido de
				desenvolvimento profissional docente tem ocorrido nos seguintes países: Estados
				Unidos, Irlanda, Portugal e Canadá, conforme demonstra a <xref ref-type="fig"
					rid="f1">figura 1</xref>.</p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<label>Figura 1</label>
					<caption>
						<title>Internacionalização fomentada pela Capes - Desenvolvimento
							Profissional (2019-2022)</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2358-0194-faeeba-33-73-0108-gf01.tif"/>
					<attrib><bold>Fonte</bold>: Elaboração própria a partir de dados da <xref
							ref-type="bibr" rid="B5">Capes (2023)</xref>.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Dessa forma, compreendemos uma dependência excessiva de parcerias com países do norte
				como um desafio significativo a ser superado, especialmente ao considerar que, os
				números da mobilidade estudantil são discrepantes, tanto em número de alunos
				enviados e recebidos, quanto suas destinações. De acordo com os dados divulgados
				pela <xref ref-type="bibr" rid="B32">Unesco (2023)</xref>, por meio da plataforma
					<italic>Global Flow of Tertiary-Level Students</italic>, os números alcançam
				cerca de 89 mil estudantes enviados para o exterior - sem distinção dos projetos de
				internacionalização por área; e recebe cerca de 22 mil estudantes. Notamos, no
				entanto, que ao passo que os brasileiros têm como destinos comuns Argentina,
				Portugal, Estados Unidos, Austrália, Canadá, Alemanha, França, Espanha, Reino Unidos
				e Itália (conforme mostra a <xref ref-type="fig" rid="f2">figura 2</xref>),
				recebemos alto volume de estudantes da Colômbia, Angola, Peru, Paraguai, Bolívia,
				Guiné Bissau, Argentina, Haiti, Venezuela (conforme mostra a <xref ref-type="fig"
					rid="f1">figura 1</xref>).</p>
			<p>
				<fig id="f2">
					<label>Figura 2</label>
					<caption>
						<title>Destino de estudantes brasileiros nos programas de
							internacionalização - dados Unesco</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2358-0194-faeeba-33-73-0108-gf02.tif"/>
					<attrib><bold>Fonte</bold>: Elaboração própria a partir de dados da <xref
							ref-type="bibr" rid="B32">Unesco (2023)</xref>.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>
				<fig id="f3">
					<label>Figura 3</label>
					<caption>
						<title>Estudantes de internacionalização recebidos pelo Brasil em 2022 -
							dados Unesco</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2358-0194-faeeba-33-73-0108-gf03.tif"/>
					<attrib><bold>Fonte</bold>: Elaboração própria a partir de dados da <xref
							ref-type="bibr" rid="B32">Unesco (2023)</xref>.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B20">Morosini, Dalla Corte e Guilherme (2017)</xref>
				apontam uma tendência surgida no contexto brasileiro na última década: o princípio
				de cooperação nos processos de internacionalização educacional, pensando no
				fortalecimento das instituições latino-americanas com o objetivo de “enfrentar os
				desafios do desenvolvimento e superar as desigualdades sociais” (Declaração de Foz
				do Iguaçu, 2015, p. 343 <italic>apud</italic> Morosidados da Unesco sobre mobilidade
				internani; Dalla Corte; Guilherme, 2017, p. 101). A cional estudantil e programas de
				cooperação tendência, entretanto, não se confirma pelos internacional da Capes.</p>
			<p>Seguindo a definição de <xref ref-type="bibr" rid="B29">Tarrant, Rubin e Stoner
					(2014)</xref>, que compilaram diversas perspectivas, a cidadania global, embora
				um conceito sujeito a debates e complexidades, normalmente engloba três dimensões
				centrais amplamente reconhecidas na literatura sobre estudos internacionais. Estas
				dimensões abrangem: a) responsabilidade social (a preocupação pelo bem-estar
				coletivo e pelo meio ambiente); b) consciência global (compreensão e valorização das
				diversidades individuais no mundo e das questões globais); c) engajamento cívico
				(participação ativa em questões locais, regionais, nacionais e globais).</p>
			<p>Podemos analisar a presente questão da seguinte maneira: as constantes mudanças
				econômicas, políticas e sociais, alavancadas pelo processo de globalização, exigem
				políticas educacionais de internacionalização que reforcem perspectivas
				multilaterais. Isso significa o estabelecimento de relações horizontais e
				equilibradas entre parcerias sul-sul, norte-sul e sul-norte, de modo a fortalecer os
				vínculos com e entre países semiperiféricos e nações latino-americanas, sem excluir
				políticas com países do hemisfério norte. Pensamos que, somente assim, neste
				equilíbrio, estaremos em busca da perspectiva da cidadania global.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Nem oito nem oitenta: um caminho pelo meio como alternativa para superar
				fronteiras</title>
			<p>Este estudo objetivou analisar o fenômeno da internacionalização no panorama
				educacional brasileiro, com ênfase nas iniciativas e programas para a
				internacionalização da formação de professores no Brasil. A discussão remontou o
				estabelecimento das primeiras relações de cooperação entre universidades
				internacionais, marcando os primórdios da internacionalização do ensino superior no
				mundo, com o Tratado de Bolonha. Encaminhando o enfoque para as relações de
				internacionalização educacionais na América Latina, temos o surgimento de
				iniciativas como a Rede Ibero-americana para Acreditação da Qualidade da Educação
				Superior (Iaces) e a União das Universidades da América Latina e do Caribe (Udual) a
				partir dos anos 2000.</p>
			<p>Ao lançarmos o olhar para o campo de investigação científica de Formação de
				Professores, a partir de dados disponibilizados pela Capes, constatamos que a
				internacionalização para a formação docente financiada por essas instituições entre
				os anos de 1998 e 2020 favoreceu majoritariamente a chamada internacionalização
				norte-sul.</p>
			<p>Por outro lado, na última década, no Brasil, fortaleceu-se o discurso por um
				movimento de internacionalização contrário a este, já analisado por <xref
					ref-type="bibr" rid="B20">Morosini, Dalla Corte e Guilherme (2017)</xref> e
				debatido por autores como <xref ref-type="bibr" rid="B9">Farias, Oliveira e Peloso
					(2021)</xref> em que a cooperação nos processos de internacionalização
				educacional devem prezar pelo fortalecimento das instituições latino-americanas com
				o objetivo de promover justiça social e enfrentamento de desafios comuns aos países
				do hemisfério sul.</p>
			<p>Nesse sentido, ponderamos que a adoção de uma perspectiva para a internacionalização
				da educação superior no Brasil não deve excluir a outra, ou sobrepô-la: buscar por
				estratégias de internacionalização que promovam uma relação de horizontalidade,
				favorecendo cooperação entre nações que compartilham dos mesmos desafios e possam
				ser equiparadas em termos de desenvolvimento social e econômico não precisa
				significar o abandono de relações com países que, em lugares econômicos mais
				privilegiados, possam contribuir com o desenvolvimento e divulgação científicas para
				o avanço da ciência e da fronteira do conhecimento. Da mesma forma, o fortalecimento
				de associações com nações que historicamente detêm o poder global, não deve deixar
				de questionar práticas hegemônicas guiadas por uma lógica eurocentrada.</p>
			<p>Afinal, internacionalizar a educação superior de uma nação não deve jamais se reduzir
				a uma ideia de que “ensina” quem sabe mais e “aprende” quem sabe menos (ou melhor
				dizendo, o Brasil não envia um pesquisador para aprender lá fora e recebe um
				pesquisador para nos ensinar aqui dentro). A internacionalização da educação
				superior deve ser sinônimo de aprendizagem mútua e pesquisa conjunta. Nesse sentido,
				a busca pela formação de indivíduos para o exercer de uma cidadania global deve ser
				imperativo nos esforços pela internacionalização da educação de uma nação. Primar
				pela construção de relações globais guiadas pelo respeito à diversidade e ao
				multiculturalismo e a tolerância às diferenças é a palavra de ordem para o triunfo
				das internacionalizações plurais da educação no mundo.</p>
			<p>Dado o exposto, sabemos que existe ainda uma extensa trajetória a ser percorrida rumo
				ao êxito. Entre os primeiros passos, identificamos a necessidade da ampliação das
				discussões do tema e seus debates adjacentes. Encorajar a relevância científica da
				discussão, bem como a divulgação dos resultados, dentro e fora dos espaços
				acadêmicos, promovendo a conscientização social sobre o que consiste a
				internacionalização do ensino superior é um empreendimento preliminar.</p>
			<p>Temas correlatos, como a educação linguística e a ideia de formação de uma
				coletividade falante de um idioma comum, devem participar da discussão. Afinal, é
				sabido que a língua é um fator importante na formação da individualidade dos
				sujeitos, extrapolando a função de código comunicacional e adquirindo o status de
				parte constituinte da identidade de cada um. É preciso analisar os impactos e
				desdobramentos de iniciativas pelo multilinguismo como estratégia para
				internacionalização.</p>
			<p>Olhando para as relações políticas do país no cenário internacional, que estão em
				constante movimento e geram impactos em escala global, reconhecemos ainda outro
				tópico que merece atenção para a continuidade da discussão: recentemente, o grupo
				econômico BRICS, composto até então por Brasil, Rússia, Índia, China e África do
				Sul, anunciou sua expansão para o ano de 2024, admitindo Argentina, Arábia Saudita,
				Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã. Com a nova formação, esse grupo passa
				a ser composto por quase metade da população do planeta, compreendendo países do
				hemisfério norte e hemisfério sul. Assim como outros movimentos, como a mencionada
				União Europeia. Essa expansão também é impulsionada por fatores políticos e
				econômicos. Nesse contexto, surge a indagação: como será a relação desse movimento,
				permeado por implicações políticas e econômicas, na internacionalização da educação?
				Esta questão abre caminho para futuras pesquisas e novos debates no cenário
						acadêmico.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn5">2</xref></sup></p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>1</label>
				<p>Texto revisado e normalizado por Angélica Ramacciotti Monteiro.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>2</label>
				<p>O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de
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