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			<journal-title-group>
				<journal-title>Rev. FAEEBA - Ed. e Contemp.</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. FAEEBA - Ed. e
					Contemp.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2358-0194</issn>
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				<publisher-name>Universidade do Estado da Bahia</publisher-name>
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				>10.21879/faeeba2358-0194.2023.v33.n73.p151-169</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigo</subject>
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				<article-title>DIRETRIZES PARA A INTERNACIONALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR EM TEMPOS
					HODIERNOS</article-title>
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					<trans-title>GUIDELINES FOR INTERNATIONALIZATION OF HIGHER EDUCATION IN
						CONTEMPORARY TIMES</trans-title>
				</trans-title-group>
				<trans-title-group xml:lang="es">
					<trans-title>LINEAMIENTOS PARA LA INTERNACIONALIZACIÓN DE LA EDUCACIÓN SUPERIOR
						EN LA CONTEMPORANEIDAD</trans-title>
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				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-7327-2686</contrib-id>
					<name>
						<surname>Oviedo</surname>
						<given-names>Lourdes Evangelina Zilberberg</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"/>
					<bio>
						<p>Doutorado em Política e Gestão da Educação Superior (UNTREF/Argentina),
							Pós-doutoranda em Educação na Pontifícia Universidade Católica do Rio
							Grande do Sul (PUCRS), Diretora de Internacionalização na Fundação
							Armando Alvares Penteado, São Paulo- SP. E-mail:
								<email>lourdes.oviedo.zilberberg@gmail.com</email></p>
					</bio>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-2431-654X</contrib-id>
					<name>
						<surname>Rodrigues</surname>
						<given-names>Diego Palmeira</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff2"/>
					<bio>
						<p>Doutorado em Educação (UNOESC/ Santa Catarina), Pós-doutorando em
							Educação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
							(PUCRS), Técnico em Assuntos Educacionais na Universidade Federal da
							Fronteira Sul. E-mail:
							<email>diegopalmeirarodrigues@gmail.com</email></p>
					</bio>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-8515-2908</contrib-id>
					<name>
						<surname>Almeida</surname>
						<given-names>Maria de Lourdes Pinto de</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff3"/>
					<bio>
						<p>Doutorado em Filosofia, História e Educação (UNICAMP, Campinas),
							Pós-doutorado em Política, Ciência e Tecnologia (UNICAMP), Docente e
							Pesquisadora na Universidade Estadual de Campinas e na Universidade
							Federal de Santa Maria. E-mail: <email>malu04@gmail.com</email></p>
					</bio>
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			<aff id="aff1">
				<institution content-type="orgname">Fundação Armando Alvares Penteado</institution>
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			<aff id="aff2">
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal da Fronteira
					Sul</institution>
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					Sul</institution>
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			<aff id="aff3">
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>01</day>
				<month>05</month>
				<year>2024</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Jan-Mar</season>
				<year>2024</year>
			</pub-date>
			<volume>33</volume>
			<issue>73</issue>
			<fpage>151</fpage>
			<lpage>169</lpage>
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				<date date-type="received">
					<day>16</day>
					<month>09</month>
					<year>2023</year>
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				<date date-type="accepted">
					<day>11</day>
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					<year>2024</year>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Este artigo apresentou os resultados de uma pesquisa exploratória de caráter
					qualitativo, baseada na análise bibliográfica e documental, que teve por
					objetivo analisar as diretrizes para a Internacionalização da Educação Superior
					da declaração da Conferência Regional de Educação Superior de 2018 e dos
					documentos da Conferência Mundial de Educação Superior de 2022. A metodologia
					utilizada foi a histórico-crítica, que tem como meta compreender as questões
					educacionais inseridas no contexto histórico, tendo por base a categoria da
					totalidade. Entre as principais descobertas, observa-se a existência de uma
					dicotomia entre uma concepção humanista e solidária da internacionalização e uma
					visão economicista, que encontra fundamento na adopção das regras de mercado e
					na criação de um único ecossistema global, baseado nos princípios de
					desenvolvimento sustentável da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This paper presents the results of a qualitative exploratory study based on a
					bibliographical and documentary research, whose objective was to analyze the
					guidelines for the internationalization of higher education in the declaration
					of the Regional Conference on Higher Education 2018 and in the documents of the
					World Higher Education Conference 2022. The methodology used was
					historicalcritical, based on Saviani’s theory, which aims to understand
					educational questions within a specific historical context, using the concept of
					totality. Among the main findings of the research, it was observed that a
					dichotomy exists between a humanist and solidarity-based conception of
					internationalization and an economic vision, which finds its basis in the
					adoption of market rules and in the creation of a cohesive global ecosystem
					grounded in the principles of sustainable development of United Nations’2030
					Agenda.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>Este trabajo presenta los resultados de una investigación exploratoria
					cualitativa, fundamentada en el análisis bibliográfico y documental, cuyo
					objetivo fue analizar los lineamientos para la Internacionalización de la
					Educación Superior de la declaración de la Conferencia Regional de Educación
					Superior de 2018 y de los documentos de la Conferencia Mundial de Educación
					Superior de 2022. La metodología utilizada fue la histórico-crítica, basada en
					la teoría de Saviani, que busca comprender las cuestiones educativas de
					determinado contexto histórico, con base en la categoría de la totalidad. Entre
					los hallazgos se observa que hay una dicotomía entre una concepción humanista y
					solidaria de la internacionalización y una visión economicista, que encuentra su
					base en la adopción de reglas de mercado y en la creación de un único ecosistema
					global, basado en los principios de desarrollo sostenible de la Agenda 2030 de
					la Organización de las Naciones Unidas.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Internacionalização da Educação Superior</kwd>
				<kwd>Conferência Mundial de Educação Superior</kwd>
				<kwd>Conferência Regional de Educação Superior</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Internationalization of Higher Education</kwd>
				<kwd>World Higher Education Conference</kwd>
				<kwd>Regional Conference on Higher Education</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>Internacionalización de la Educación Superior</kwd>
				<kwd>Conferencia Mundial de Educación Superior</kwd>
				<kwd>Conferencia Regional de Educación Superior</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>Este texto é fruto de uma pesquisa realizada no ano de 2022, no Grupo de Estudos e
				Pesquisas em Processos e Políticas Educacionais (GEPP&amp;PE), da Universidade do
				Oeste de Santa Catarina (UNOESC) e tem por objetivo analisar as diretrizes para a
				Internacionalização da Educação Superior nos discursos apresentados na declaração da
				Conferência Regional de Educação Superior (CRES, 2018) e nos documentos da
				Conferência Mundial de Educação Superior (CMES) de 2022.</p>
			<p>O estudo realizado foi exploratório, de caráter qualitativo e baseou-se na análise
				bibliográfica e documental da declaração da CRES 2018 e do documento de trabalho da
				CMES 2022: <italic>Más allá de los límites. Nuevas Formas de Reinventar la Educación
					Superior</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Unesco, 2022</xref>). A
				metodologia utilizada foi a histórico-crítica, baseada na teoria de Dermeval
				Saviani, que tem por objetivo compreender as questões educacionais, tendo por base o
				desenvolvimento histórico objetivo (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Saviani,
					2013</xref>, p. 76), ou seja, o objeto de pesquisa no contexto da sociedade
				humana, como ela está organizada e como ela pode contribuir para a transformação
				social (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Corsetti, 2010</xref>, p. 89).</p>
			<p>Nesse sentido e complementando as ideias de <xref ref-type="bibr" rid="B31">Saviani
					(2013)</xref> sobre o uso do materialismo histórico para compreensão dos
				fenômenos que envolvem a Educação, <xref ref-type="bibr" rid="B3">Corsetti (2010, p.
					89)</xref> afirma que “isso significa compreender a educação no contexto da
				sociedade humana, como ela está organizada e como ela pode contribuir para a
				transformação da sociedade”. Desse modo, alicerçados nessa perspectiva metodológica,
				procuramos interpretar não apenas a constituição do conceito que diz respeito ao
				nosso objeto, mas compreender as contradições que o fenômeno enseja, mais
				especificamente sobre a questão da elaboração das políticas públicas, como elas
				chegam até o chão da universidade e como são desenvolvidas.</p>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B31">Saviani (2013, p. 120)</xref>:</p>
			<disp-quote>
				<p>Quando se pensam os fundamentos teóricos, observa-se que, de um lado, está a
					questão da dialética, essa relação do movimento e das transformações; e, de
					outro, que não se trata de uma dialética idealista, uma dialética entre os
					conceitos, mas de uma dialética do movimento real. Portanto, trata-se de uma
					dialética histórica expressa no materialismo histórico, que é justamente a
					concepção que procura compreender e explicar o todo desse processo, abrangendo
					desde a forma como são produzidas as relações sociais e suas condições de
					existência até a inserção da educação nesse processo.</p>
			</disp-quote>
			<p>Neste sentido, procuramos utilizar a teoria trazida na Pedagogia Histórico Crítica
					(<xref ref-type="bibr" rid="B31">Saviani, 2013</xref>) não somente como
				metodologia, mas também como uma perspectiva de análise do objeto investigado. A
				análise da investigação, como dissemos anteriormente, foi de abordagem qualitativa,
				tendo como procedimentos metodológicos: a) pesquisa bibliográfica; b) análise
				documental, c) estudo do contexto histórico dos documentos elaborados; d) reflexão
				do conteúdo abordado pelos documentos tendo como base a historicidade do período
				delimitado.</p>
			<p>Vale a pena ressaltar que, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B34">Stallivieri
					(2017)</xref>, as universidades precisam seguir um plano rigoroso de inserção
				internacional, sendo fundamental a elaboração de um diagnóstico sobre o perfil, bem
				como a missão da instituição. Isso nos leva a entender que internacionalizar é um
				processo complexo e que não se dá apenas pela adesão e elaboração de documentos com
				metas e objetivos, seguindo um “modelo”, mas também pelo mapeamento da realidade
				local com vistas às potencialidades e fragilidades das Instituições de Ensino
				(IES).</p>
			<p>Partindo desse pressuposto, entendemos que pela categoria da historicidade (<xref
					ref-type="bibr" rid="B30">Saviani, 1991</xref>) dos fatos sociais que permeiam o
				objeto é possível compreender a multiplicidade de determinações tanto fundamentais
				quanto secundárias que os produzem.</p>
			<p>Este artigo se organiza em quatro partes. A primeira parte apresenta aspectos
				teóricos da internacionalização da Educação Superior. A segunda seção consiste em um
				histórico das conferências mundiais de Educação Superior da Organização das Nações
				Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Na sequência, apresentamos a
				análise dos documentos da CRES 2018 e da CMES 2022. Realizada esta etapa, fizemos
				uma reflexão diante das convergências e divergências entre a CRES 2018 e a CMES
				2022.</p>
			<p>Com o presente estudo, esperamos contribuir com o campo de pesquisa sobre a
				internacionalização da Educação Superior e apontar o caminho para a realização de
				outros estudos e pesquisas sobre as CMES promovidas pela Unesco.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Sobre a Internacionalização da Educação Superior</title>
			<p>A internacionalização vem sendo amplamente debatida em congressos, seminários,
				simpósios e fóruns internacionais. Trata-se de uma das mudanças mais marcantes do
				Campo Educativo, que adquiriu força no período do pós-guerra, devido ao avanço da
				globalização. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a preocupação era a de conformar
				uma nova ordem, baseada no Sistema da Organização das Nações Unidas (ONU) e nos
				acordos de Bretton Woods. Nesse período, também nasceu a Unesco e iniciaram-se os
				primeiros processos de integração regional, sem contar com a criação de outros
				organismos multilaterais que passaram a influenciar as políticas educativas dos
				diversos países, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
				(OCDE), criada em 1960 e o <italic>General Agreement on Tariffs and Trade</italic>
				(GATT), seguido da Organização Mundial do Comércio (OMC), criados em 1947 e em 1990,
				respectivamente.</p>
			<p>Nesse contexto, as instituições de educação superior (IES) adunaram esforços para
				responder aos desafios impostos pelas transformações ocorridas na sociedade. Entre
				eles, destacam-se a massificação da Educação Superior (ES), a necessidade de
				desenvolver políticas de inclusão e de democratização, a preocupação com a qualidade
				dos programas oferecidos, a discussão sobre o modelo de geração de conhecimento e de
				Universidade do novo século e a internacionalização.</p>
			<p>Portanto, no Campo da ES, o conceito de globalização deve ser entendido no marco da
				teoria política, analisada com o auxílio do método histórico-dialético, ou seja,
				relacionada ao avanço do capitalismo financeiro e da ideologia neoliberal. A
				sociedade global seria então um universo social diverso, em que as forças
				unificadoras dos meios modernos de produção, mercados, comunicações e modernização
				cultural e política se inter-relacionam com segmentações globais, regionais e
				nacionais (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Shaw, 1994</xref>). Trata-se de um
				fenômeno que afeta a oferta, a demanda, incide nos currículos dos cursos, nos
				modelos pedagógicos, nas tecnologias usadas e nos espaços geográficos de abrangência
					(<xref ref-type="bibr" rid="B1">Altbach, 2006</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B37">Torres, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B2">Cambours de
					Donini, 2011</xref>).</p>
			<p>A globalização e a internacionalização podem ser consideradas duas caras da mesma
				moeda, pois ambas tratam de ações desenvolvidas além das fronteiras dos Estados
				nacionais. Porém, na internacionalização, os atributos do Estado, bem como a sua
				soberania, permanecem intactos, já na globalização, o poder deste se atenua diante
				do avanço da conformação de uma espécie de província global, com características
				unificadoras e homogeneizantes (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Gacel-Ávila,
					2003</xref>, p. 31).</p>
			<p>Nesse sentido, o processo de internacionalização da educação, segundo <xref
					ref-type="bibr" rid="B14">Morosini e Franco (2006)</xref>, intensificou-se, a
				partir dos anos 1990, por estar intimamente ligado à globalização, como afirmamos
				anteriormente, estendendo-se da prática da pesquisa para o ensino superior como um
				todo, tendo seu conceito atrelado às razões de internacionalizar, que, para <xref
					ref-type="bibr" rid="B24">Pereira (2019)</xref>, são de ordem política,
				econômica, sociocultural e acadêmica.</p>
			<p>Por sua vez, o Neoliberalismo pode ser entendido como um conjunto de ações e de
				programas econômicos, políticos, jurídicos, sociais e ideológicos (<xref
					ref-type="bibr" rid="B6">Gentili, 2000</xref>). Na visão neoliberal, o Estado
				deve se limitar a garantir o funcionamento do mercado e só intervir nas funções
				sociais não atrativas para a iniciativa privada. Essa visão economicista do Campo
				educativo, que implica na relação cada vez mais estreita entre educação e mercado,
				fortaleceu-se pela Teoria do Capital Humano, que analisa a educação como
				investimento, com sua respectiva taxa de retorno social (para a sociedade) e
				individual (para o próprio indivíduo). Portanto, o aumento do Capital Humano (fator
				H) representa altas taxas de produtividade do trabalhador, favorecendo o crescimento
				econômico do país e a competitividade internacional (<xref ref-type="bibr" rid="B25"
					>Psacharopulos; Patrinos, 2002</xref>).</p>
			<p>Além da teoria do capital humano, a pedagogia das competências, tendo como principal
				teórico a Philippe Perrenoud, completa a visão epistemológica neoliberal adotada nas
				políticas educativas, a partir da década de 80. Essa pedagogia parte do pressuposto
				de que as pessoas se desenvolvem pelas relações estabelecidas em seu meio. Assim, o
				desenvolvimento das competências foi um efeito da adaptação dos indivíduos às
				condições de existência. A teoria apresenta um conjunto de saberes e de habilidades
				que o indivíduo tem que desenvolver para atender às necessidades do mercado (<xref
					ref-type="bibr" rid="B4">Deluiz, 2001</xref>). Tais conceitos
				teórico-epistemológicos começaram a aparecer nos trabalhos dos principais organismos
				multilaterais, em alguns casos de forma mais evidente, como na OCDE e, em outros, de
				forma mais sutil, porém constante, como na Unesco.</p>
			<p>Voltando à internacionalização, não há dúvidas de que uma das tendências da Educação
				Superior foi a presença cada vez mais destacada desse fenômeno em todos os níveis:
				global, regional, nacional e institucional (<xref ref-type="bibr" rid="B12"
					>Morosini; Dalla Corte, 2021</xref>, p. 41). Compete, portanto, definir o
				conceito, tendo em vista as diversas nuances de um tema ainda em construção. A
				definição mais citada pela literatura é a de Jane Knight que a apresenta como “o
				processo de integrar as dimensões internacional, intercultural ou global no
				propósito, função e provisão da Educação Superior” (<xref ref-type="bibr" rid="B10"
					>Knight, 2004</xref>, p. 11). A pesquisadora canadense escolheu, cuidadosamente,
				as palavras que compõem a definição mais citada pela literatura: “processo”, que
				indica um esforço constante, e “integrar”, que apresenta a necessidade de contemplar
				as dimensões internacional e intercultural nas políticas, programas e missão da
				instituição.</p>
			<p>Nesse sentido, “internacional, intercultural e global” são elementos dissímeis,
				porém, juntos, constituem a base da internacionalização. As palavras “propósito e
				função” referem-se ao papel da ES, bem como aos elementos ou tarefas que a
				caracterizam, por exemplo: ensino, aprendizagem, pesquisa, responsabilidade social,
				sociedade etc. Finalmente, a palavra “provisão” trata da oferta de cursos por parte
				das IES ou de novos fornecedores, tanto no âmbito doméstico quanto no
				internacional.</p>
			<p>Na mesma linha epistemológica, Morosini, em uma conferência que proferiu na
				Universidade do Rio Grande Do Sul, além de reforçar o uso da definição elaborada por
				Jane Knight, incorpora a interação por meio de redes de cooperação, ou seja, a visão
				latino-americana sobre o tema.</p>
			<disp-quote>
				<p>Processo de integrar uma dimensão internacional e intercultural na Educação
					Superior advindo de interações, sustentadas por redes colaborativas, por blocos
					socioeconômicos desenvolvidos e com outros que valorem múltiplas culturas,
					diferenças e tempos, fortalecendo a capacidade científica tecnológica nacional,
					conectada com o local, com o fito de ser irradiador do desenvolvimento
					sustentável (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Morosini, 2017</xref>, s/p).</p>
			</disp-quote>
			<p>Em uma abordagem sistêmica, fundamentada na teoria de sistemas abertos de Katz e Kahn
				(1978), em que a organização se encontra influenciada por seu contexto e na
				pedagogia crítica de Aronowitz e Giroux (1991), <xref ref-type="bibr" rid="B5">Gacel
					-Ávila (2003)</xref> considera a internacionalização como um processo educativo
				contrahegemônico, que ocorre no contexto internacional de conhecimento em que as
				universidades são consideradas um subsistema, ou seja, uma parte do todo mais
				abrangente e inclusivo. Esse processo é contrahegemônico, porque a IES responde ao
				fenômeno da globalização, internacionalizando suas atividades, o que leva a
				questionar o processo educativo como um todo e a adaptá-lo. Nessa perspectiva, a
				internacionalização favorece a representação de múltiplas perspectivas culturais,
				tanto no conhecimento gerado quanto nas práticas organizacionais (<xref
					ref-type="bibr" rid="B5">Gacel-Ávila, 2003</xref>).</p>
			<p>Do ponto de vista prático, a internacionalização implica em uma série de atividades
				que podem ser agrupadas em dimensões. Knight apresenta duas dimensões:
				internacionalização do <italic>campus</italic>, em inglês
					<italic>Internationalization at Home</italic> (IaH), e Educação Transnacional
					(<xref ref-type="bibr" rid="B9">Knight, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B12">Morosini; Dalla Corte, 2021</xref>).</p>
			<p>Na IaH, as IES buscam introduzir, no currículo dos diversos programas, temas
				internacionais, culturais ou globais, por meio do uso de idiomas estrangeiros,
				estudos regionais e programas de dupla titulação, entre outros. Mais recentemente,
				as IES passaram a incluir, na IaH, os projetos de intercâmbio virtual, que conectam
				estudantes em diversas partes do mundo por meio do uso da tecnologia. Por sua vez, a
				Educação Transnacional refere-se à mobilidade das pessoas, programas fornecedores,
				políticas, conhecimento, ideias, projetos, serviços etc., além das fronteiras dos
				estados. Essa dimensão é comumente associada à comercialização dos serviços
				educativos e à mercantilização da ES (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Knight,
					2012</xref>, p. 36). Esta associação acentuou-se quando a Educação, concebida
				como bem comum e direito de todos, passou a ser considerada como um serviço
				comercializado internacionalmente e incluída nas negociações do <italic>General
					Agreement on Trade and Services</italic> (GATS) e, posteriormente, na OMC (<xref
					ref-type="bibr" rid="B26">Punteney, 2019</xref>, p. 15).</p>
			<p>Existe, portanto, uma dialética entre uma abordagem mais solidária e humanista da
				internacionalização baseada na cooperação e que considera a Educação Superior como
				bem público; e, outra, mais mercantil, baseada em uma visão economicista do campo
				educativo. A base desta última é o contingente de estudantes (com previsão de 8
				milhões, em 2025), que se movimentam de um país a outro em busca de serviços
				internacionalmente comercializados, constituindo uma importante fonte de renda para
				alguns países, especialmente os membros da OCDE e, dentro dessa organização, os
					<italic>Main English Speaking Destination Countries</italic><xref ref-type="fn"
					rid="fn1">1</xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Punteney, 2019</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B12">Dalla Corte; Morosini, 2021</xref>).</p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<label>Figura 1</label>
					<caption>
						<title>Campo da Internacionalização da Educação Superior.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2358-0194-faeeba-33-73-0151-gf01.tif"/>
				</fig>
			</p>
			<p>Considerando esses atributos, <xref ref-type="bibr" rid="B12">Morosini e Dalla Corte
					(2021)</xref> apresentam o Campo da internacionalização da Educação Superior de
				uma forma esquemática. Nessa representação, as dimensões da internacionalização
				(institucional, nacional, regional e global) se inter-relacionam com o contexto do
				conhecimento global norte, o conhecimento global sul, com a visão da Educação como
				bem público, em contraponto ao serviço internacionalmente comercializado. O esquema
				também considera a IaH, cujo epicentro é a interculturalidade.</p>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B27">Rodrigues Dias (2017)</xref>, essas forças
				globalizantes agem na tentativa de impor um pensamento homogêneo, por meio da teoria
				da modernização e da adoção de processos coordenados e interconectados. Dessa forma,
				o uso de palavras como: reformas, mudanças, uso da tecnologia etc., traz consigo a
				recomendação de adotar novos sistemas, de acordo com os objetivos impostos por
				determinados grupos de interesse que predominam na atuação dos organismos
				multilaterais (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Rodrigues Dias, 2017</xref>, p.
				56).</p>
			<p>Entre os processos que se encontram interconectados, segundo <xref ref-type="bibr"
					rid="B27">Rodrigues Dias (2017, p. 59)</xref>, encontram-se: a implementação dos
				princípios do Acordo Geral de Serviços da OMC (que apresenta a educação como um
				serviço internacionalmente comercializado); o estabelecimento de um sistema
				internacional de credenciamento; revisão das convenções sobre o reconhecimento de
				estudos e aproveitamento de créditos; o processo de Bolonha e a adoção do Espaço
				Europeu de Educação Superior (EEES), cujo modelo estendeu-se a outras regiões em
				forma de cooperação e de harmonização dos sistemas educativos; o sistema de
					<italic>rankings</italic> internacionais; e o desenvolvimento dos
					<italic>Massive Open Online Courses</italic> (MOOCs).</p>
			<p>A Unesco, cuja atuação nos compete analisar, tem um discurso mais sutil e congrega em
				seus fóruns de discussão as duas visões epistemológicas que se contrapõem, em uma
				espécie de dialética, ao longo de mais de 70 anos de atuação do organismo.</p>
			<p>Por um lado, os países em desenvolvimento, como os latino-americanos, defendem a
				educação como bem público, aquela que observa os princípios de
					<bold>igualdade</bold>, pois todos têm o direito ao serviço, sem discriminação;
				de <bold>continuidade</bold>, já que o bem público deve ser oferecido de forma
				permanente, sem interrupção, e atender às necessidades de todos os cidadãos; e de
					<bold>adaptabilidade</bold> ou de <bold>flexibilidade</bold>, isto é, deve
				adaptar-se à evolução da sociedade. Essa concepção não elimina a possibilidade de
				concessão, delegação ou autorização, porém implica que os beneficiários dessas
				medidas se submetam às normas do Estado (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Rodrigues
					dias, 2017</xref>, p. 38). Por outro lado, certos grupos de interesse dos países
				desenvolvidos, membros da OCDE, encontram, na Educação Superior (ES), uma importante
				fonte de renda e de competitividade.</p>
			<p>A educação como bem público e direito de todos busca uma internacionalização
				solidária e cooperativa, encontrando fundamento no propósito originário da ES, que é
				a universalização do conhecimento em benefício de todos. No entanto, a educação como
				serviço comercializado busca a transnacionalização, liberalização das economias à
				entrada de fornecedores externos e a homogeneização dos sistemas educativos, tendo
				como base o modelo ocidental de Universidade. Essa dialética pode ser observada nos
				trabalhos das três Conferências Mundiais sobre Educação Superior (CMES), cujo
				histórico é apresentado na próxima seção.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>As Conferências Mundiais sobre Educação Superior da Unesco: primeiras
				aproximações</title>
			<p>A Unesco é um organismo integrado da ONU, criado em 16 de novembro de 1945, com o
				intuito de ajudar na reconstrução da educação e do patrimônio cultural diante do
				cenário de perdas, danos e prejuízos deixados pela Segunda Guerra Mundial. De 20 de
				novembro a 10 de dezembro de 1946, realizou-se a primeira Conferência Geral do
				organismo, com o intuito de determinar suas principais linhas de trabalho,
				principalmente, nas áreas de educação, ciências naturais, ciências humanas e
				sociais, cultura, comunicação e informação.</p>
			<p>Entre os principais objetivos da organização, encontram-se: a diminuição da pobreza
				extrema, a igualdade de gênero, a garantia de acesso e qualidade da educação básica
				a todas as crianças, jovens e adultos. Sua influência se dá por meio de seus
				institutos, centros, conferências mundiais, documentos e parcerias entre governos e
				organismos financeiros, como o Banco Mundial.</p>
			<p>No Brasil, a representação da Unesco instalou-se em Brasília, em 1964, e começou as
				atividades em 1972, com o intuito de propagar os ideais de paz, coesão social e
				respeito mútuo entre as nações (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Unesco,
				2015</xref>).</p>
			<p>No campo da educação, a Unesco começou a atuar desde cedo. Logo em 1947, foi lançada
				a primeira publicação na área da Educação intitulada: <italic>Fundamental Education:
					Common Ground for All Peoples</italic>. Posteriormente, foi adotado o conceito
				de “educação fundamental”, tal concepção foi abandonada em 1959 e substituída por
				“educação fora da escola” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Unesco, 2015</xref>, p.
				33). Por sua vez, o encontro de Estados-membros da Ásia, que ocorreu em 1960, em
				Karachi, no Paquistão, elaborou um Plano para a Oferta de Educação Primária
				Universal, Obrigatória e Gratuita (o plano era destinado à determinadas regiões),
				porém definiu objetivos de longo prazo para cada país, tendo em vista o sistema de
				educação primária universal, obrigatório e gratuito até 1980 (<xref ref-type="bibr"
					rid="B15">Unesco, 2015</xref>, p. 79).</p>
			<p>Na Conferência Geral de 1964 e na Conferência de Teerã, a Unesco passou a vincular a
				Educação com o desenvolvimento econômico das nações, adotando uma abordagem mais
				integrada a determinados projetos de desenvolvimento industrial e agrícola e uma
				visão economicista do Campo educativo. Desta forma, como recomendação da Conferência
				de Teerã, entre 1967 e 1973, criou-se o Programa Experimental Mundial para a
				Alfabetização (PEMA) (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Unesco, 2015</xref>, p.
				80).</p>
			<p>As primeiras noções do conceito de “educação ao longo da vida”, defendido pela
				Unesco, surgiram, em 1972, no relatório final da Comissão Internacional sobre
				Desenvolvimento da Educação (coordenada por Edgar Faure), intitulado: “Aprender a
				ser: o mundo da educação hoje e amanhã” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Unesco,
					2015</xref>, p. 86).</p>
			<p>Nesse crescente ambiente de influência neoliberal, realizou-se a Conferência Mundial
				em Educação para Todos, ocorrida em Jomtien, na Tailândia, em 1990. O objetivo era
				tornar a educação primária acessível a todas as crianças e reduzir expressivamente o
				analfabetismo antes do final da década. O resultado foi a Declaração Mundial em
				Educação para Todos, que reafirmou a noção de educação como um direito humano
				fundamental.</p>
			<p>Em 1996, a Unesco publicou o relatório de Jacques Delors, intitulado “Educação: um
				tesouro a descobrir”, que defende a educação como bem público, porém associada à
				atuação do setor privado, em relação direta com o mercado de trabalho e com o
				desenvolvimento econômico das nações. O documento incorpora o conceito de
				“aprendizado ao longo da vida”, que passou a ser fortemente utilizado nas décadas
				posteriores (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Unesco, 2015</xref>, p. 88), o que
				representa mais uma conquista para os que defendiam a visão economicista da
				Educação.</p>
			<p>No ano 2000, realizou-se o Fórum Mundial de Educação, em Dakar, no Senegal,
				reforçando a visão da Declaração Mundial em Educação para Todos aprovada em Jomtien.
				O encontro estabeleceu o “Compromisso de Dakar”, que incluiu seis objetivos
				abrangentes de Educação para Todos (EPT). Alguns meses mais tarde, oito Objetivos de
				Desenvolvimento do Milênio (ODM) foram adotados pelas Nações Unidas, destacando-se:
				o ODM 2 e o ODM3, de acesso à educação primária e na igualdade de gênero e de
				empoderamento das mulheres.</p>
			<p>Chegamos à Conferência Mundial sobre Educação Superior (CMES) no Século XXI: Visão e
				Ação, realizada em Paris, em 1998. Dessa Conferência resultou a “Declaração Mundial
				sobre Educação Superior no Século XXI: Visão e Ação” de 9 de outubro de 1998.</p>
			<p>Como parte dos preparativos da Conferência, a Unesco publicou, em 1995, o “Documento
				de Política para Mudança e Desenvolvimento em Educação Superior”. Além disso, foram
				realizadas consultas regionais. No caso da América Latina (AL), a Conferência
				Regional de Educação Superior (CRES) foi realizada em Havana, Cuba, em 1996, dela
				emanou uma declaração sobre o entendimento dos Estados da região sobre ES. Entre os
				principais temas tratados nesse documento, encontram-se: as transformações do
				sistema educativo, a necessidade de melhora da qualidade, a avaliação e a
				acreditação internacional, o entendimento de que a educação é um bem social, a
				necessidade de oferecer oportunidades iguais de acesso, consciência de pertencimento
				à comunidade local e internacional, diversificação das fontes de financiamento da
				ES, estipula estratégias de melhoria da gestão institucional, entendimento de que as
				Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) são ferramentas úteis para a
				modernização da educação, e fomento à cooperação internacional (<xref
					ref-type="bibr" rid="B11">Moraes; Rubin, 2019</xref>, p. 129). Como vimos,
				palavras como modernização, necessidade de mudanças, qualidade e acreditação tendem
				a seguir os lineamentos do discurso homogeneizante de mercado.</p>
			<p>Voltando à CMES 1998, observa-se a crescente tendência neoliberal, já que o próprio
				documento destaca a necessidade de introduzir reformas no setor, com o objetivo de
				preparar os alunos para que possam enfrentar os desafios impostos pelo século XXI e
				para que estejam mais preparados para a economia do conhecimento. No preâmbulo, o
				documento define o que se entende por ES: “todos os tipos de estudos, de formação ou
				de preparação para a pesquisa, num nível pós-secundário, oferecidos por uma
				universidade ou outros estabelecimentos de ensino acreditados pelas autoridades
				competentes do Estado como centros de ensino superior” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B17">Unesco, 1998</xref>, p. 1).</p>
			<p>Segundo o documento, a missão da ES é educar, formar e realizar pesquisas. Educar
				implica na capacitação profissional e na preparação para a cidadania. Por “formar”,
				entende-se abrir-se para a participação ativa na sociedade e no mundo. Já na missão
				da pesquisa, considera-se a geração e difusão de conhecimentos no campo das ciências
				naturais, tecnologia, ciências sociais, humanidades e artes criativas. O documento
				também defende a autonomia universitária, a igualdade de acesso e a igualdade de
				oportunidades por meio do mérito, o fomento à pesquisa em todas as áreas acadêmicas
				e ressalta a importância da ES para a sociedade no longo prazo. Já o artigo 7
				reforça a importância da relação da ES com o mercado de trabalho, recomendando a
				realização de adequações nos sistemas de ensino para uma melhor formação dos novos
				profissionais. Além disso, expressa-se a necessidade de desenvolver currículos
				focados na transmissão do saber, de melhorar a qualidade do ensino, fomentar a
				cooperação internacional e regional, aprimorar a gestão institucional e de aumentar
				o financiamento público, reconhecendo-se o caráter de serviço público, sem perder de
				vista, porém, a associação com a iniciativa privada (<xref ref-type="bibr" rid="B17"
					>Unesco, 1998</xref>).</p>
			<p>A segunda Conferência Mundial sobre Ensino Superior (CMES, 2009) realizou-se dez anos
				depois também em Paris. Como de costume, foram realizadas as consultas regionais e a
				Conferência Regional de Educação Superior na AL ocorreu em 2008, em Cartagena de
				Índias, na Colômbia. Na declaração resultante dos trabalhos da CRES constam os
				seguintes temas: reitera-se o conceito de Educação como bem público, direito humano
				e universal, a manutenção da autonomia universitária, a necessidade de realizar
				financiamento adequado, currículos flexíveis, valorizar as ciências humanas,
				artísticas e sociais, incrementar a cooperação Sul-Sul, harmonizar os métodos de
				ensino, sistemas de acreditação e desenvolvimento do empreendedorismo, bem como
				programas e projetos em cooperação com os países da região.</p>
			<p>Desta forma, a segunda Conferência Mundial de Educação Superior (CMES, 2009), cujo
				tema foi: “As Novas Dinâmicas do Ensino Superior e Pesquisas para a Mudança e o
				Desenvolvimento Social”, desenvolveu-se em um contexto de crise econômica
				internacional. Da conferência emanou um comunicado de 8 páginas, que contêm, em
				destaque, os seguintes pontos: educação como bem público: principais funções das
				instituições, sendo o ensino, a pesquisa e os serviços comunitários; importância da
				autonomia de ensino e liberdade das Instituições de Educação Superior (IES); ensino
				interdisciplinar; acesso ao ensino e sucesso no mercado de trabalho; sociedade do
				conhecimento; investimento por meio das parcerias entre a iniciativa pública e
				privada e investimento em educação a distância e TICs (<xref ref-type="bibr"
					rid="B11">Moraes; Rubin, 2019</xref>, p. 130).</p>
			<p>Além disso, no que diz respeito à internacionalização, incorporam-se ao comunicado os
				conceitos de internacionalização, regionalização e globalização. A cooperação
				internacional, segundo o documento, deve se basear na solidariedade e no respeito
				mútuo. Destaca-se a necessidade de desenvolver a cooperação Sul-Sul e Norte-Sul,
				cabe às IES ajudar na disseminação do conhecimento ao redor do mundo, por meio de
				redes de cooperação, parcerias, intercâmbios de estudantes e mobilidade acadêmica. O
				comunicado expressa ainda que a ES deve “contribuir para a educação de cidadãos
				éticos, comprometidos com a construção da paz, com a defesa dos direitos humanos e
				com os valores da democracia” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Unesco, 2009</xref>,
				p. 1).</p>
			<p>Em 2015, a Assembleia Geral das Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou os 17
				Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Esses objetivos fazem parte da
				Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, que é um plano de ação global para
				erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir a prosperidade para todos. A
				Agenda 2030 foi adotada por unanimidade pelos 193 Estadosmembros das Nações Unidas
				durante a Cúpula das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada em
				Nova York, em setembro de 2015.</p>
			<p>O quarto objetivo de desenvolvimento sustentável (4 ODS) tem relação com a educação
				“assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover
				oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B18">ONU, 2015</xref>). Nesse objetivo, encontram-se as
				seguintes metas que deverão ser atendidas até 2030: todas as meninas e meninos
				completem o ensino primário e secundário livre, equitativo e de qualidade, que
				conduza a resultados de aprendizagem relevantes e eficazes; todos tenham acesso a um
				desenvolvimento de qualidade na primeira infância, cuidados e educação pré-escolar,
				de modo que estejam prontos para o ensino primário; assegurar a igualdade de acesso
				para todos os homens e mulheres à educação técnica, profissional e superior de
				qualidade, a preços acessíveis, incluindo universidade; aumentar substancialmente o
				número de jovens e adultos que tenham habilidades relevantes, inclusive competências
				técnicas e profissionais para emprego, trabalho decente e empreendedorismo; eliminar
				as disparidades de gênero na educação e garantir a igualdade de acesso a todos os
				níveis de educação e formação profissional para os mais vulneráveis, incluindo as
				pessoas com deficiência, povos indígenas e as crianças em situação de
				vulnerabilidade; garantir que todos os jovens e uma substancial proporção dos
				adultos, homens e mulheres estejam alfabetizados e tenham adquirido o conhecimento
				básico de matemática; garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e
				habilidades necessárias para promover o desenvolvimento sustentável, inclusive,
				entre outros, por meio da educação para o desenvolvimento sustentável e estilos de
				vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de gênero, promoção de uma cultura de
				paz e não violência, cidadania global e valorização da diversidade cultural e da
				contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável.</p>
			<p>Assim, construir e melhorar instalações físicas para educação apropriadas das
				crianças e sensíveis às deficiências e ao gênero, e que proporcionem ambientes de
				aprendizagem seguros e não violentos, inclusivos e eficazes para todos. Ainda que,
				até 2020, amplie-se o número de bolsas de estudo para os países em desenvolvimento,
				em particular, os países menos desenvolvidos, pequenos Estados insulares em
				desenvolvimento e os países africanos, para o ensino superior, incluindo programas
				de formação profissional, de tecnologia da informação e da comunicação, técnicos, de
				engenharia e programas científicos em países desenvolvidos e outros países em
				desenvolvimento e, até 2030, que se aumente o contingente de professores
				qualificados, inclusive por meio da cooperação internacional para a formação de
				professores, nos países em desenvolvimento, especialmente os países menos
				desenvolvidos e pequenos Estados insulares em desenvolvimento (<xref ref-type="bibr"
					rid="B18">ONU, 2015</xref>).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Análise dos documentos da CRES 2018 e da CMES 2022</title>
			<p>A terceira Conferência Mundial sobre Educação Superior (CMES, 2022), inicialmente
				planejada para acontecer em 2021, foi realizada de 18 a 20 de maio de 2022, em
				Barcelona, na Espanha. Segundo a <xref ref-type="bibr" rid="B22">Unesco
					(2023)</xref>, a “3ª Conferência Mundial do Ensino Superior CMES 2022 reuniu as
				partes interessadas relevantes para definir e preparar um roteiro para uma nova era
				do ensino superior”.</p>
			<disp-quote>
				<p>Com mais de 160 sessões paralelas e 400 oradores, a Conferência Mundial do Ensino
					Superior da Unesco (CMES, 2022) reuniu 2500 interessados no ensino superior em
					Barcelona, Espanha, de 18 a 22 de maio de 2022, para reformular idéias e
					práticas no ensino superior para assegurar o desenvolvimento sustentável para o
					planeta e a humanidade (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Unesco, 2023</xref>,
					s/p).</p>
			</disp-quote>
			<p>A CMES 2022 teve como idiomas de trabalho o inglês, o espanhol e o francês e contou
				com a presença de 2873 participantes e 483 palestrantes, realizada em formato
				híbrido, ou seja, presencial e virtual, com 9800 conexões (<xref ref-type="bibr"
					rid="B22">Unesco, 2023</xref>).</p>
			<p>No site da CMES 2022, encontravam-se disponíveis os seguintes documentos de
				trabalho:</p>
			<list list-type="bullet">
				<list-item>
					<p><italic>Más allá de los límites. Nuevas formas de reinventar la educación
							superior Hoja de Ruta propuesta para la</italic> CMES 2022 (<xref
							ref-type="bibr" rid="B20">Unesco, 2022</xref>);</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p><italic>Reinventando la Educación Superior para un futuro sostenible</italic>
							(<xref ref-type="bibr" rid="B21">Unesco, 2022a</xref>);</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p><italic>Higher education global data report (Summary). A contribution to the
							World Higher Education Conference 18-20 May 2022</italic> (<xref
							ref-type="bibr" rid="B23">Unesco, 2022b</xref>).</p>
				</list-item>
			</list>
			<p>Dentre estes documentos, optamos por analisar o “<italic>Más allá de los límites.
					Nuevas Formas de Reinventar la Educación Superior</italic>”, que apresenta mais
				subsídios para atender ao objetivo e às intenções de análise do presente estudo. É
				importante mencionar que não houve a publicação de um relatório ou declaração
				resultante da CMES 2022.</p>
			<p>O documento de trabalho da CMES 2022, intitulado “<italic>Más allá de los límites.
					Nuevas Formas de Reinventar la Educación Superior</italic>”, é definido como um
				documento aberto para discussões, possui 42 páginas, é organizado em 5 seções e
				propõe um roteiro para a reinvenção da ES nos próximos anos. A primeira seção
				identifica o ambiente das mudanças ocorridas na última década, incluindo o impacto
				da pandemia da Covid-19. A segunda seção apresenta a visão da Unesco sobre a ES. A
				seção três identifica seis princípios para moldar o futuro, são eles: inclusão,
				equidade e pluralismo; liberdade acadêmica e participação de todos os setores;
				pesquisar, pensamento crítico e criativo; integridade e ética; comprometimento com a
				responsabilidade social e sustentabilidade; e excelência pela cooperação
				internacional. Com base na visão da Unesco e nesses princípios, seis grandes
				desafios precisam ser superados para “reinventar” a ES: acesso equitativo e
				sustentável, prioridade para a experiência de aprendizado holístico dos estudantes,
					<italic>inter</italic> e <italic>intra</italic> disciplinar, foco no aprendizado
				ao longo da vida para servir jovens e adultos, sistema integrado, com diversidade de
				programas e com vias flexíveis de aprendizado e a tecnologia como apoio ao ensino e
				pesquisa. Finalmente, essa proposta identifica várias abordagens práticas para
				avançar, transformando o diálogo em ação e resultados (seção cinco). A última seção
				contém uma cronologia com uma série de iniciativas globais para mais progressos no
				repensar, reimaginar e reinventar a ES. O roteiro está resumido nas primeiras cinco
				páginas deste documento, e depois apresentadas em detalhe nas secções um a cinco
					(<xref ref-type="bibr" rid="B20">Unesco, 2022</xref>).</p>
			<p>Com relação à internacionalização da Educação Superior, o documento de trabalho da
				CMES 2022 comenta sobre seu incremento nos últimos anos, destacando a mobilidade
				internacional.</p>
			<disp-quote>
				<p>Durante as últimas décadas também tem se produzido um crescimento da
					internacionalização da ES. Juntamente com a matrícula, a mobilidade
					internacional de estudantes aumentou a um ritmo sem precedentes. Estas
					tendências levaram ao desenvolvimento de convenções de reconhecimento regional
					de “segunda geração”, bem como à Convenção de Reconhecimento Global para o
					Ensino Superior para ajudar a tornar o reconhecimento, a mobilidade e a
					cooperação interuniversitária uma realidade para milhões de pessoas, incluindo
					estudantes de ensino à distância e refugiados. Ao mesmo tempo, o ensino à
					distância e outras formas de ensino superior transfronteiriço estão contribuindo
					para um aumento do ensino superior virtual e da mobilidade académica virtual,
					com todos os desafios que as novas formas de prestação apresentam para os
					reguladores e a garantia de qualidade (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Unesco,
						2022</xref>).</p>
			</disp-quote>
			<p>A Conferência preparatória da CMES 2022 na América Latina, a CRES 2018, foi realizada
				em 2018, em Córdoba, na Argentina, no marco da comemoração dos 100 anos da Reforma
				de Córdoba de 1918.</p>
			<p>A declaração da CRES 2018 incorpora, assim, o espírito integrador latino-americano do
				Manifesto de Córdoba. Portanto, a Declaração da CRES 2018 opõe-se fortemente à visão
				economicista do Campo educativo e inclui os seguintes tópicos: a educação como bem
				público, social e um direito humano universal e dever dos Estados, a educação
				pública, gratuita e de qualidade, a autonomia universitária (fortemente defendida
				pela Reforma de Córdoba de 1918), diálogo entre todos os saberes de forma plural e
				igualitária e a necessidade de contar com programas de bolsas e de fontes de
				financiamento para estudantes marginalizados e grupos minoritários (<xref
					ref-type="bibr" rid="B11">Moraes; Rubin, 2019</xref>, p. 130).</p>
			<p>A Declaração começa com uma frase similar à contida no Manifesto de Córdoba de 1918,
				“mulheres e homens da América Latina e do Caribe” e cita textualmente o manifesto
				com a seguinte frase: “as dores que ficam são as liberdades que faltam”. Além disso,
				adverte que a educação não é uma mercadoria, portanto, os Estados membros devem se
				abster de subscrever acordos de livre comércio nos sistemas educativos da região
					(<xref ref-type="bibr" rid="B7">Iesalc, 2018</xref>, p. 1).</p>
			<p>Em matéria de internacionalização, a declaração contém os conceitos
				interculturalidade, cooperação regional (Sul-Sul), intercâmbio de estudantes,
				disseminação do conhecimento em nível regional e integração. O documento destaca a
				importância da diversidade cultural e da interculturalidade na AL e no Caribe. A
				interculturalidade deve ser promovida de forma equitativa e respeitosa, pois,
				segundo a CRES, a educação, além de ser um direito humano, é também um direito dos
				povos. A questão indígena e a questão racial são apresentadas como altamente
				importantes no marco intercultural e diverso da região. A internacionalização deve
				fomentar a cooperação sul-sul e a integração regional, tendo que promover o diálogo
				intercultural, “respeitando a idiossincrasia e identidade dos países participantes”
					(<xref ref-type="bibr" rid="B7">Iesalc, 2018</xref>, p. 9).</p>
			<p>Portanto, na visão da CRES 2018, a internacionalização é uma ferramenta chave para
				transformar a ES e se encontra intimamente relacionada ao conceito de
				interculturalidade, em contraposição à concepção mercantilista da Educação Superior.
				A internacionalização, no conceito da CRES 2018, favorece a “formação de cidadãos,
				profissionais respeitosos da diversidade cultural e comprometidos com o entendimento
				intercultural, a cultura da paz e com a capacidade de conviver e trabalhar em uma
				comunidade local e mundial” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Iesalc, 2018</xref>, p.
				9).</p>
			<p>A internacionalização também deve ser “humanista e solidária e deve contribuir para
				uma melhor compreensão entre as culturas e as nações, a partir de uma colaboração
				interinstitucional baseada na solidariedade e no respeito mútuo” (Iesalc, 2018, p.
				9). Trata-se de um estímulo para transformar o setor educativo e de um “meio
				estratégico para a produção do conhecimento com uma perspectiva baseada na
				colaboração internacional (...)”, de um processo que contribui para o
				desenvolvimento de competências globais e interculturais nos estudantes (<xref
					ref-type="bibr" rid="B7">Iesalc, 2018</xref>, p. 10).</p>
			<p>Logo, no âmbito da CRES 2018, a internacionalização ocupa um papel central e está
				intimamente relacionada ao desenvolvimento dos sistemas da região, da pesquisa
				científica e da inovação, bem como ao desenvolvimento humano, social e econômico. O
				conhecimento e a educação, no contexto da CRES 2018, são concebidos como um direito
				humano universal e um direito coletivo dos povos, ou seja, um bem público social
					(<xref ref-type="bibr" rid="B7">Iesalc, 2018</xref>, p. 13), em contraponto à
				visão cada vez mais economicista adotada nos documentos da Unesco sobre o setor.</p>
			<p>O <xref ref-type="table" rid="t1">Quadro 1</xref>, apresentado a seguir, resume as
				principais visões epistemológicas da Declaração da CRES 2018 e do documento da CMES
				2022: “<italic>Más allá de los límites. Nuevas Formas de Reinventar la Educación
					Superior</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Unesco, 2022</xref>).</p>
			<table-wrap id="t1">
				<label>Quadro 1</label>
				<caption>
					<title>Visão da Educação Superior e da Internacionalização na CRES 2018 e na
						CMES 2022.</title>
				</caption>
				<table>
					<thead>
						<tr>
							<th align="center" colspan="4" style="background-color:#C1D7EC;"
								>DEClARAção DA CRES 2018</th>
						</tr>
						<tr>
							<th align="left" style="background-color:#E6E7E8;"><bold>Local e
									Contexto</bold></th>
							<th align="center" style="background-color: #E6E7E8;"><bold>Conceito
									de</bold><break/><bold>Educação</bold><break/><bold>Superior</bold></th>
							<th align="center" style="background-color: #E6E7E8;"><bold>Visão da
									Internacionalização</bold></th>
							<th align="center" style="background-color: #E6E7E8;"
									><bold>Outros</bold><break/><bold>Destaques</bold></th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Conferência Regional de Educação Superior
								(CRES) realizada em Córdoba, na Argentina, no marco da comemoração
								dos 100 anos da Reforma de Córdoba de 1918.</td>
							<td align="left" valign="top">A educação como bem público, social e um
								direito humano universal e dever dos Estados. Direito dos
								Povos.</td>
							<td align="left" valign="top">Humanista e solidária. Deve contribuir
								para uma melhor compreensão entre as culturas e as nações, a partir
								de uma colaboração interinstitucional baseada na solidariedade e no
								respeito mútuo. Formação de cidadãos, profissionais respeitosos da
								diversidade cultural e comprometidos com o entendimento
								intercultural, a cultura da paz e com a capacidade de conviver e
								trabalhar em uma comunidade local e mundial.</td>
							<td align="left">Autonomia Universitária.<break/>Desenvolvimento
								Sustentável por meio da cooperação regional e
								internacional.<break/>Cooperação SulSul.<break/>Desenvolvimento de
								Currículos flexíveis.<break/>Valorização das Ciências humanas,
								artísticas e sociais. Contar com financiamento adequado.
								Harmonização dos métodos de ensino e de sistemas de acreditação.
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" colspan="4" style="background-color:#C1D7EC;;"
								>DOCUMENTO DE TRABALHO: <italic>MáS ALLá DE LOS LÍMITES. NUEVAS
									FORMAS DE REINVENTAR LA EDUCACIÓN SUPERIOR</italic> (<xref
									ref-type="bibr" rid="B20">UNESCO, 2022</xref>)</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#E6E7E8;"><bold>Local e
									Contexto</bold></td>
							<td align="center" style="background-color: #E6E7E8;"><bold>Conceito
									de</bold><break/><bold>Educação</bold><break/><bold>Superior</bold></td>
							<td align="center" style="background-color: #E6E7E8;"><bold>Visão da
									Internacionalização</bold></td>
							<td align="center" style="background-color: #E6E7E8;"
									><bold>Outros</bold><break/><bold>Destaques</bold></td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Contexto de <break/>“Pós-pandemia” da
								COVID-19, realização da CMES 2022, em Barcelona entre 18 e 20 de
								maio de 2022. Segundo o documento: mudança climática e perda da
								biodiversidade. Conflitos armados como grande
								ameaça.<break/>Desigualdade de renda. <break/>Declive da
								democracia.<break/>Expansão da ES, porém com grandes disparidades.
								Impacto da COVID-19.</td>
							<td align="left" valign="top">Educação como parte invisível dos direitos
								humanos.<break/>Educação como direito que se deve exercer ao longo
								do ciclo vital.<break/>ES é parte integrante do direito à educação
								como bem público. Esse conceito se traduz no cumprimento das três
								missões da ES: produzir conhecimento por meio da pesquisa, educar as
								pessoas e responsabilidade social.</td>
							<td align="left" valign="top">Cooperação Internacional por meio de
								redes. Futuro compartilhado em um único ecossistema global baseado
								nos 17 ODS da ONU (internacionalização como meio de padronização dos
								sistemas educativos, apesar de que se reconhecem as características
								de cada sistema).<break/>Foco na transnacionalização da ES,
								destacando a mobilidade internacional de estudantes (5,4 milhões de
								alunos, em 2017 e previsão de 8 milhões, em 2025. Mobilidade
								virtual, inclusive, como uma ferramenta de democratização do
								conhecimento. </td>
							<td align="left" valign="top">A ES como meio para atingir os 17
								Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030,
								particularmente, o ODS 4, que se refere à educação de
								qualidade.<break/>Necessidade de reformas e de ajustes nos diversos
								sistemas educativos. Princípios para configurar o futuro da ES:
								Inclusão, equidade e pluralismo; liberdade acadêmica e participação;
								<break/>Pensamento <break/>Crítico e Criatividade; Integridade e
								ética; <break/>Compromisso com a sustentabilidade e responsabilidade
								social; Excelência acadêmica. </td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib><bold>Fonte:</bold> Os autores.</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
			<p>Como se pode observar, a dicotomia entre uma internacionalização humanista e
				solidária e uma internacionalização mais mercantilizada, vista como um meio de
				exportação de serviços educativos, encontra-se presente nos documentos analisados. A
				declaração emanada da CRES 2018 apresenta a visão regional, dos países
				latino-americanos que defendem uma visão epistemológica mais cooperativa da ES e que
				concebem a internacionalização como um meio para o desenvolvimento da
				interculturalidade, do respeito mútuo e da cooperação Sul-Sul, entendendo que há uma
				disparidade nas relações estabelecidas com os países do capitalismo central
				(cooperação Norte-Sul).</p>
			<p>Por sua vez, os documentos de trabalho da CMES 2022, além de tratar da perspectiva da
				ES como bem público, defendida pelos países em desenvolvimento, entre eles, os
				latino-americanos, também trazem para o centro da discussão proposições baseadas na
				visão economicista do campo educativo, presente em todos os organismos
				multilaterais, que tendem a impor uma agenda global em torno dessa concepção e a
				homogeneizar os diversos sistemas educativos em detrimento das particularidades e
				necessidades de cada região.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações Finais: convergências e divergências entre a CRES 2018 e a CMES
				2022 sobre a internacionalização da Educação Superior</title>
			<p>A intenção deste estudo foi identificar e analisar os pontos convergentes da CRES
				2018 e CMES 2022 com relação à internacionalização da Educação Superior, no entanto
				esta tarefa foi dificultada já que os documentos são de caráter diferentes. Enquanto
				a declaração da CRES 2018 é um documento resultante das discussões da conferência, o
					“<italic>Más allá de los límites. Nuevas Formas de Reinventar la Educación
					Superior</italic>” foi um documento de trabalho utilizado para fomentar os
				debates da CMES 2022, que não publicou um documento final que reunisse os principais
				apontamentos retirados do evento. O documento foi assumido como um roteiro para o
				desenvolvimento de ações relativas à ES nos próximos anos. Isso foi uma dificuldade,
				mas não impediu que as análises fossem realizadas. Neste sentido, seguiremos atentos
				aos novos documentos e desdobramentos da CMES 2022 e indicaremos a realização de
				estudos e análises que monitorem as ações, debates e publicações decorrentes da CMES
				2022.</p>
			<p>A internacionalização na declaração da CRES 2018 é assumida como cooperação e
				interculturalidade e possui uma visão humanista e solidária, já no “<italic>Más allá
					de los límites. Nuevas Formas de Reinventar la Educación Superior</italic>”,
				documento de trabalho da CMES 2022, o foco é na transnacionalização da ES,
				destacandose a mobilidade internacional de estudantes. Ambos os documentos estão
				alinhados no que diz respeito ao conceito de educação, entendendo-a como um bem
				comum e direito de todos. Inclusive, este tem sido um entendimento apregoado nos
				principais documentos da Unesco sobre educação, um exemplo recente é o
					“<italic>Reimagining our futures together: a new social contract for
					education</italic>” (Unesco, 2021).</p>
			<p>Em relação à internacionalização da Educação Superior, os documentos convergem ao
				passo que a relacionam à cooperação. No entanto, em certa medida, divergem, pois, a
				internacionalização, apesar de ser apresentada na perspectiva da cooperação, no CRES
				2018, é humanista e intercultural, enquanto, no CMES 2022, é apresentada somente
				como cooperação internacional.</p>
			<p>Na declaração do CRES 2018, a internacionalização da Educação Superior visa
				contribuir para uma melhor compreensão entre as culturas e as nações, a partir de
				uma colaboração interinstitucional baseada na solidariedade e no respeito mútuo.</p>
			<p>No documento de trabalho da CMES 2022, a internacionalização tem o intuito de compor
				um ecossistema global de ES, que pode vir a ser uma forma de padronização dos
				sistemas educativos, apesar do reconhecimento das características de cada
				sistema.</p>
			<p>No “<italic>Más allá de los límites. Nuevas Formas de Reinventar la Educación
					Superior</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Unesco, 2022</xref>), a
				internacionalização é associada à mobilidade, no entanto, esta é apenas um dos
				processos pelos quais a internacionalização se materializa. Dessa forma, esse
				documento, assim como os demais documentos relativos à CMES 2022 que tivemos acesso,
				parecem indicar uma concepção de que a internacionalização se traduz em mobilidade,
				pelo destaque direcionado pelos dados que demonstram o crescente aumento da
				mobilidade.</p>
			<p>Assim, entre as descobertas desta pesquisa, destaca-se que na CRES, a ES é concebida
				como um bem público, social e direito humano universal, sendo dever do Estado. Essa
				declaração contém uma parte destinada à internacionalização e à integração regional.
				O conceito de internacionalização adotado nessa conferência é o da
				“internacionalização humanista e solidária que contribua para uma maior e melhor
				compreensão e cooperação entre as culturas e as nações, a partir de uma colaboração
				interinstitucional baseada na solidariedade e no respeito mútuo”, ou seja, vem ao
				encontro da visão da educação como bem público e direito de todos. No caso dos
				documentos analisados no marco da CMES, Reinventando a ES para um Futuro
				Sustentável, realizada em Barcelona, em maio de 2022, reafirma-se o princípio de ES
				como bem público e direito de todos.</p>
			<p>Vale a pena destacar a necessidade de reinventá-la de forma que possam ser atingidos
				os objetivos de desenvolvimento sustentável estabelecidos pela Organização das
				Nações Unidas, no contexto da Agenda Mundial 2030. No que diz respeito à
				internacionalização, o destaque vai para o conceito de cooperação internacional, a
				mobilidade internacional de estudantes e para o cenário da educação transacional,
				que movimentou mais de 5 milhões de estudantes, em 2018, deixando de lado a questão
				da cooperação mais solidária e equitativa e a interculturalidade (<xref
					ref-type="bibr" rid="B26">Punteney, 2019</xref>, p. 18).</p>
			<p>Entendemos que a Educação é um bem comum e um direito de todos e não deve ser tratada
				como serviço comercializável. Da mesma forma, a internacionalização da Educação
				Superior deveria ser desenvolvida por meio de uma cooperação entre instituições e
				países e não da competição pela busca de “melhores posições” em
					<italic>rankings</italic> para alcançar maior visibilidade e atratividade de
				estudantes e de investimentos.</p>
			<p>É importante destacar a metodologia utilizada para análise documental foi a
				HistóricoCrítica que nos possibilitou a compreensão do objeto estudado como
				integrante da educação com base no desenvolvimento histórico, ou seja, não somente
				num determinado momento de forma estanque, mas sim numa perspectiva dialética tendo
				como categoria norteadora a totalidade. Assim sendo, este estudo se manteve aberto
				no sentido de que se faz mister a continuidade de pesquisas sobre esta temática tão
				atual e polêmica, a fim de que a compreensão crítica deste fenômeno investigativo
				educacional seja constantemente desenvolvida e debatida. Assim, por meio dessa
				concepção, cujas origens são baseadas na dialética, entendemos necessária a
				compreensão do contexto histórico que constitui o objeto de estudo.</p>
			<p>Essa escolha metodológica, embasou-se no movimento da dialética de <xref
					ref-type="bibr" rid="B8">Kosik (2002, p. 20)</xref>, no qual “[...] o pensamento
				crítico se propõe a compreender a ‘coisa em si’ e sistematicamente se pergunta como
				é possível se chegar à compreensão da realidade”. Assim, para conhecer a essência
				“da coisa” é preciso conhecer as partes, suas ligações e as determinantes de sua
				concretude.</p>
			<p>Nesse sentido, vale a pena relembrar o que afirma <xref ref-type="bibr" rid="B34"
					>Stallivieri (2017)</xref>, ressaltando que as universidades precisam seguir um
				plano rigoroso de inserção internacional, sendo fundamental a elaboração de um
				diagnóstico sobre o perfil, bem como a missão da instituição. Além disso, devem
				levar em conta as seguintes questões: a localização geográfica; a língua de
				comunicação e de instrução; a participação em redes e grupos de pesquisa; o
				potencial de publicações científicas em nível nacional e internacional; as condições
				para estabelecer parcerias com instituições internacionais; oferecimento de
				programas de formação em língua inglesa; disponibilização de uma estrutura favorável
				para o recebimento de estrangeiros e desenvolvimento de projetos internacionais.</p>
			<p>Dessa forma, o embate da educação e, consequentemente, da internacionalização,
				enquanto bem comum (direito) ou como serviço comercializável (mercadoria), estará
				presente, influenciando as discussões e decisões sobre a educação. É importante ter
				em conta que as políticas ou processos de internacionalização desenvolvidos fazem
				parte deste embate e que, em maior ou menor grau, contribuem para um dos lados desse
				embate. A internacionalização como cooperação ou como competição é um dos
				desdobramentos desta disputa.</p>
			<p>Nesse sentido, <xref ref-type="bibr" rid="B29">Santos Filho (2018, p. 186)</xref>
				afirma que “[...] el objetivo de la mejora de la excelencia académica de las
				universidades por la vía de la cooperación académica arriesga desvirtuarse en su por
				fines más nobles”, ou seja, deixando em segundo plano as razões acadêmicas e
				culturais para se tornar um instrumento pelo qual as universidades competem no
				mercado internacional.</p>
			<p>Enfim, tudo isso nos leva a entender que internacionalizar é um processo complexo e
				que não se dará apenas pela adesão e elaboração de documentos com metas e objetivos,
				seguindo um “modelo”, mas o mapeamento da realidade local com vistas às
				potencialidades e fragilidades das Instituições de Ensino (IES).</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Estados Unidos da América, Reino Unido, Canadá e Austrália.</p>
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