O sagrado, o profano e a figura do diabo na literatura e no cinema a partir da análise do conto popular inédito A peleja de Roxo
Palavras-chave:
Literatura, oralidade, SagradoResumo
Este artigo investiga as dimensões do sagrado e do profano no conto popular A peleja de Roxo, narrativa da tradição oral recolhida no sertão baiano por meio de escuta direta, gravação e posterior transcrição, assegurando a preservação da memória dos narradores. O conto, ambientado na década de 1940, narra a trajetória de Olegário, conhecido como “Roxo”, que enfrenta uma criatura sobrenatural em uma peleja marcada pelo embate entre forças humanas e sobrenaturais. O objetivo é compreender como a oralidade ressignifica experiências cotidianas em chave simbólica, mobilizando representações do profano e do sagrado. A metodologia consistiu no registro da narrativa oral e em uma análise comparativa, confrontando a temática do conto com outras produções literárias e cinematográficas, a partir dos referenciais teóricos de Mircea Eliade, Paul Zumthor, Luís da Câmara Cascudo, Amadou Hampâté Bâ e Gislayne Matos. Os critérios de análise privilegiaram a identificação de símbolos religiosos, as rupturas entre o cotidiano e a transcendência, bem como a função cultural da narrativa na construção da memória social. O corpus é constituído pela versão do conto transmitida intergeracionalmente, que reflete tanto marcas do contexto histórico-social quanto elementos da religiosidade popular. Os resultados evidenciam as narrativas orais como repositórios de valores simbólicos e culturais, destacando a simbologia do diabo no imaginário sertanejo. Conclui-se que tais narrativas preservam, atualizam e ressignificam tradições, sendo fundamentais para compreender as relações entre sagrado, profano e cultura popular.
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