Laboratórios de Educação (em) Matemática e a Construção de uma Nova Cultura Matemática
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Resumo
Prezadas leitoras e prezados leitores,
O presente dossiê temático da Revista Baiana de Educação Matemática afirma-se como um marco relevante no panorama contemporâneo da Educação Matemática, ao reunir um conjunto expressivo e diversificado de investigações e relatos de experiência centrados nos Laboratórios de Educação (em) Matemática (LEM). Os 22 textos agora publicados evidenciam a consolidação destes espaços como dispositivos estruturantes da articulação entre formação inicial e contínua de professores, investigação académica, inovação pedagógica e extensão à comunidade, contribuindo de forma inequívoca para a construção de uma nova cultura matemática.
A amplitude geográfica das contribuições constitui um dos aspetos mais significativos deste dossiê. Os trabalhos refletem realidades institucionais e educativas de diferentes regiões do Brasil, abrangendo os seguintes estados: Bahia, Pernambuco, Alagoas, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pará, Amazonas, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, bem como experiências desenvolvidas em instituições federais, estaduais e institutos federais, situadas tanto em capitais como em contextos do interior do país. Esta diversidade territorial revela a vitalidade e a capilaridade dos LEM no cenário nacional brasileiro, bem como a sua capacidade de responder a desafios locais sem perder de vista debates globais da Educação Matemática.
O dossiê assume igualmente uma dimensão luso-brasileira, integrando dois textos provenientes de Portugal, associados a instituições de referência na formação de professores e na investigação em Didática da Matemática. Estas contribuições reforçam o diálogo internacional e permitem estabelecer pontes conceptuais e metodológicas entre diferentes contextos educativos, enriquecendo a reflexão sobre os LEM enquanto espaços de aprendizagem ativa, investigação e desenvolvimento profissional docente.
No conjunto dos artigos, os LEM emergem como espaços plurais: ambientes de experimentação didática, de produção de materiais manipuláveis e digitais, de desenvolvimento de práticas investigativas, de promoção da inclusão, da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade, bem como de aproximação efetiva entre universidade, escola e comunidade. Os textos evidenciam, ainda, desafios persistentes, como a institucionalização dos laboratórios, a sustentabilidade das ações, a formação específica de professores para neles atuarem e a necessidade de políticas públicas que reconheçam e valorizem estes espaços.
Os textos que integram este dossiê evidenciam a pluralidade de finalidades, conceções e práticas e atribuídas aos Laboratórios de Educação (em) Matemática, revelando-os como espaços em permanente construção, atravessados por dimensões formativas, investigativas, extensionistas e socioculturais. Apesar da diversidade de contextos institucionais e regionais, é possível identificar convergências teóricas e metodológicas que permitem organizar os contributos em alguns eixos estruturantes.
Um primeiro eixo congrega os trabalhos que analisam os LEM como espaços centrais na formação inicial de professores de Matemática. Nestes textos, o laboratório surge como ambiente privilegiado para a articulação entre teoria e prática, promovendo experiências formativas que ressignificam conceções sobre o ensino, a aprendizagem e a própria identidade docente. Destacam-se investigações que evidenciam o papel do LEM no desenvolvimento de competências didáticas, no uso crítico de materiais manipuláveis, na planificação de tarefas matemáticas e na reflexão sobre a prática pedagógica, tanto em cursos de licenciatura como em programas de mestrado (Silva; Cabrita, 2024; Vale; Barbosa, 2024; Gomes; Palhares, 2024; Carvalho Et Al., 2024; Ksiaszczyk; Guérios, 2024; Farves; Gaspar; Bastos, 2024).
Um segundo eixo refere-se às ações de extensão universitária e à relação dos LEM com a comunidade escolar e social. Os artigos aqui enquadrados mostram como os laboratórios ultrapassam os limites institucionais da universidade, assumindo-se como espaços de diálogo com escolas da educação básica, professores em exercício, estudantes de diferentes níveis de ensino e comunidades locais. Iniciativas como feiras, clubes, oficinas, eventos extensionistas e projetos colaborativos evidenciam o potencial dos LEM para mudar a cultura matemática, democratizar o acesso ao conhecimento matemático, valorizar saberes diversos e fortalecer a função social da universidade (Pires et al., 2024; Pinto; Conti, 2024; Fonseca; Vieira; Barbosa, 2024; Portela; Mafra; Carvalho, 2024; Messias; Pinto; Ferreira, 2024).
Um terceiro eixo destaca os LEM como espaços de investigação e de inovação pedagógica, onde se produzem e analisam práticas educativas ancoradas em perspetivas investigativas, socioculturais, transdisciplinares e críticas da Educação Matemática. Os textos revelam o laboratório como lugar de experimentação de metodologias ativas, de produção e transformação de materiais didáticos, de integração de diferentes áreas do conhecimento e de desenvolvimento de práticas avaliativas formativas. Neste âmbito, sobressaem reflexões que problematizam o ensino tradicional da matemática e apontam caminhos para práticas mais significativas, contextualizadas e socialmente comprometidas (Sabbado; Grutzmann, 2024; Santos; Valente; Oliveira, 2024; Ramos; Silveira; Sodré, 2024; Silva; Nasser, 2024).
Um quarto eixo reúne contributos que enfatizam os LEM na perspetiva da inclusão, da diversidade e da avaliação, evidenciando preocupações com a equidade, a acessibilidade e a justiça educativa. Os trabalhos abordam práticas inclusivas, o uso de recursos adaptados, a valorização de diferentes formas de participação e aprendizagem, bem como o desenvolvimento de conceções ampliadas de avaliação no contexto do laboratório. Estes estudos reforçam a compreensão dos LEM como espaços sensíveis às diferenças e comprometidos com uma educação matemática para todos (Marinho; Sales, 2024; Schneider; Oliveira; Reisdoefer, 2024; Silva; Nasser, 2024).
Por fim, um eixo singular, mas de grande relevância simbólica e histórica, diz respeito à memória, à identidade e ao legado dos Laboratórios de Educação (em) Matemática. A entrevista presente neste dossiê resgata trajetórias, afetos, saberes e práticas que marcaram gerações de professores, evidenciando que os LEM são também espaços de construção de histórias coletivas, de vínculos humanos e de resistência pedagógica ao longo do tempo (Batista; Rosa, 2024).
No seu conjunto, os textos revelam que, embora inseridos em realidades distintas a nível geográfico, institucional e cultural, os Laboratórios de Educação (em) Matemática partilham princípios comuns: a valorização da experiência, da investigação, da colaboração e da reflexão crítica sobre o ensino da matemática. Esta arquitetura temática confirma o papel estratégico dos LEM na consolidação de uma nova cultura matemática, alicerçada em práticas educativas mais humanas, inclusivas, criativas e socialmente relevantes.
Assim, este dossiê não apenas documenta práticas e investigações, mas também afirma os Laboratórios de Educação (em) Matemática como lugares estratégicos para pensar, fazer e transformar a Educação Matemática, no ensino superior e não superior. Espera-se que os contributos aqui reunidos inspirem novas iniciativas, fomentem redes de colaboração e aprofundem o debate académico, fortalecendo o papel dos LEM na formação de professores e na promoção de uma educação matemática crítica, criativa e socialmente comprometida.
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Referências
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